[Resenhas] Emilia Pérez

Lamento informar: embora com muitos outros filmes isso seja possível, não há como escrever sobre “Emilia Pérez” sem spoilers. Tentarei evitá-los ao máximo e, como curiosidade (mas não novidade para quem costuma ler minhas resenhas), eu mesmo evitei ler todas as críticas e informações sobre o filme antes de assisti-lo, para não saber nada da trama e evitar me sentir influenciado. Daqui por diante, é por sua conta e risco.

Claro que não houve como escapar de toda a polêmica sobre as declarações públicas e internéticas de Karla Sofia Gascón mas, mesmo achando tudo horroroso, não deixaria de assistir ao filme nem de sentar na sala escura com minha habitual benevolência e minha eterna vontade de “quero gostar do filme e sair do cinema feliz”. Isso independe de ser um filme de terror, romance, drama, comédia e não é afetado pelo fato de um artista ou diretor do filme ser uma pessoa escrota — se fosse assim, deixaria de ver muita coisa durante o ano…

Para fechar esse preâmbulo e deixar claro: comemorei o fato de uma atriz trans ter sido indicada ao Oscar. Karla levou alguns dos prêmios (Capri, European Film Award e especialmente Cannes, dividindo com as outras três protagonistas), e foi indicada a dezenas deles. Independente de suas opiniões preconceituosas, sejam as de hoje ou as de antes, continuo comemorando o fato de uma atriz trans ter sido indicada a todos estes prêmios. Não suporto preconceito, intolerância, racismo (e Karla foi bem além disso); e isso vindo de alguém que luta por respeito num universo onde a diversidade é tratada de forma tão imoral, pra mim é no mínimo um contrassenso, e eu lamento imensamente. E se isso tudo prejudicou a campanha de Karla e do filme na luta pelas premiações, é outra história que depende muito também do lobby das produtoras e distribuidoras (algumas delas, inclusive, responsáveis por vários filmes que disputam entre si os prêmios).

Vejam como isso tudo ocupa espaço, só no quarto parágrafo começo a pensar nas questões principais do longa. E este vai ser curto: “Emilia Perez”, apesar de tudo o que escrevi antes e do que escreverei a seguir, é um filmaço. Pronto, você já pode desistir da minha resenha e ir lavar a louça.

Pra começar, entendo que os mexicanos tenham torcido o nariz para o filme, afinal lá está o eterno estereótipo do narcotráfico e da pobreza. Não é privilégio deste filme, claro, muito menos deste país, isso acontece em boa parte dos filmes feitos por cineastas “estrangeiros” (especialmente estadunidenses) que querem retratar outros países “como os enxergam”; geografia física mal é respeitada (Amazônia é pertinho do Leblon), que dirá a política, a história antiga e atual dos lugares retratados, etc. Mas… epa… esse filme não é americano, é francês, falado em espanhol e inglês, diretor francês… Sobra mistureba e talvez falte tato. Para o espectador em geral, porém, o pano de fundo “narcotráfico” não se mostraria tão problemático, já que aparentemente não é o ponto central da trama, especialmente no seu primeiro terço.

Aí entra outra questão: o roteiro e a direção oferecem ao espectador uma primeira meia hora arrasadora (que, ao meu entender, é encerrada com chave de ouro na incrível cena do encontro no restaurante). O filme começa com um julgamento até bem clichê, mas a partir daí mergulhamos de cabeça, mas sem encheções de linguiça, em um mundo “de transformação” para muitos bastante complicado, e aqui evitarei o spoiler, mas são momentos de um tema onde o México em si não é fator decisivo. Poderia ali estar sendo representada qualquer pessoa, de qualquer lugar, qualquer ser influente em qualquer cultura, desejando o que Manitas pretende, seja ele traficante ou não — e é óbvio que o fato dele ser um mega bandido com muito poder e dinheiro nas mãos facilita suas intenções. Mas a partir da metade do filme, roteiro e direção vão para outro caminho, o dos desaparecidos que, ainda que muito importante, foge do mote principal e gera uma “barriga” na história. O diretor tenta retomar o fôlego do início na meia hora final, mas acho que o resultado final ficou meio “salada mista”.

Há outra questão importante: as canções. Embora tenha vencido o Globo de Ouro na categoria Musical/Comédia, o filme é um drama. D-R-A-M-A. Não há nada de comédia ali… sobrou então o “Musical”. A direção resolve interromper diversas cenas, algumas de suma importância, com… as protagonistas cantando e dançando. No início, fiquei apavorado, devido à recente experiência com “Coringa: Delírio a Dois” que (ao contrário do excelente primeiro “Coringa”) foi um dos piores filmes a que assisti em 2024. Como “Emilia Pérez” é de fato um filme com qualidades, não acho que os “números musicais” desmereçam o longa, mas… precisava? Jura? Tem horas que dá raiva, confesso. E não estou dizendo que as canções sejam ruins (duas delas concorrem ao Oscar, inclusive), só acho que em “Wicked” (para citar um filme excelente e de fato musical) isso é essencial… em “La La Land” (que muitos detestam, eu sei) isso é fofo e necessário, mas em “Emilia Pérez”… soa esquizo-frêmito, caricato e tira o foco da emoção da cena. Claro, opinião minha, vocês que lutem (e cantem e dancem).

Karla Sofia Gascón impressiona, especialmente quando muitos ainda nem a encontraram no filme. Pois é, melhor não explicar: veja. Merece sim a indicação ao Oscar, mas eu não a faria vencedora tendo Demi Moore (“A Substância”) e Fernanda Torres (“Ainda Estou Aqui”) concorrendo. Todas estas citadas em seus respectivos filmes estão extraordinárias, como igualmente está Zoe Saldaña em “Emilia Perez”, esta sim favorita a uma estatueta. Pra mim, lamento dizer, Zoe é a grande protagonista do filme e merece o Oscar, e entendo bem (pelo fato de isso ser frequente) terem colocado Zoe na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante na maioria dos prêmios, evitando o embate com Karla e com mais dez grandes interpretações da temporada, e dando a ela mais chances de vitória. Até o momento em que escrevo este texto, Zoe já levou 14 prêmios nesta categoria, incluindo o Globo de Ouro, além do já citado prêmio quádruplo em Cannes. O prêmio de Cannes, por sua vez, além de Karla e Zoe, foi entregue a Adriana Paz, que faz um participação menor, e a Selena Gomez, que acho talentosa mas não é essa coca-cola toda no filme de Jacques Audiard (indicado a Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado).

Como já disse lá em cima, é um baita filme. Está no ótimo rol de “filmes fora da casinha” da safra do Oscar 2024/2025 (não percam “Anora”, por exemplo). Concorrendo a 13 estatuetas e tendo levado 4 Globos de Ouro, pode levar mais alguns dos muitos prêmios ainda pendentes até março de 2025. Há espaço para críticas e questionamentos (os tantos que citei a cima, e outros mais que outros cinéfilos enxerguem) e também para torcidas inflamadas, já que nosso “Ainda Estou Aqui” é concorrente direto em três categorias do Oscar, mas “Emilia Perez” não merece comentários jocosos ou preconceituosos. Não mesmo. Como eu sempre digo, vá ao cinema, compre sua pipoca e confira com seus próprios olhos e emoções.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em fevereiro, 07 2025.

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