[Resenhas] Dzi Croquettes

Melhor Documentário no Festival de Torino, Melhor Documentário pelo Festival Internacional In-Edit, Prêmio Oficial do Júri em Los Angeles (melhor Documentário), Prêmio do Júri (Best Outstanding Documentary) no 34th Frameline em São Francisco, sem contar dois prêmios no Festival do Rio e três na Mostra de São Paulo. Estas são apenas algumas das premiações obtidas pelo longa brasileiro “Dzi Croquettes”. Mas estas e outras conquistas não conseguem traduzir a grandiosidade da produção dirigida por Tatiana Issa e Raphael Alvarez.

Tatiana Issa, além de diretora, é atriz que começou a atuar desde muito pequena, e portanto desde sempre esteve envolvida com o meio artístico. Mais que isso: no filme, ela aproveita para resgatar uma história bastante pessoal, já que seu pai efetivamente fez parte da trupe que acompanhava o grupo durante alguns anos. Suas lembranças aparecem no filme por meio de imagens da mesma bem pequenina, apresentada de forma discreta, sem tornar a diretora o foco do filme, com a delicadeza necessária de apenas alinhavar o início e o fim da produção.

O mais incrível é que o plano inicial da dupla de diretores — após abrirem uma produtora na Europa para mostrar que a cultura brasileira não se resume a favela e pobreza — era produzir um documentário sobre a festa de Parintins. O destino quis que, em uma vinda ao Brasil para recolher material sobre a cultura paraense, acabassem fazendo entrevistas sobre os Dzi para um possível projeto futuro: como o espectador pode ver no filme, os depoimentos ficaram tão bons que o documentário sobre Parintins foi adiado.

Os diretores simplesmente não tiveram orçamento para gastar: foi feito “no peito e na raça”, como se diz, expressão que é bem a cara do grupo retratado na telona. Como o roteiro traz à tona “temas ainda delicados” (aspas nisso, incluindo aí homossexualismo, drogas e AIDS) fez com que nenhuma empresa topasse patrocinar a produção. Somente no final a dupla conseguiu apoio do Canal Brasil, que apoiou o projeto e os ajudou a finalizar o longa. O resultado impressiona, comove, e tem uma importância enorme para entendermos o contexto cultural, político e a visão de mundo dos anos 70. O filme é tão bom como produção cinematográfica quanto como registro de época, costumes, comportamento e história: os Dzi Croquettes eram — e muita gente não sabe disso — um grupo teatral de importância enorme e que nunca tinha recebido o reconhecimento e o registro que merece e que os diretores conseguiram traduzir por meio de imagens de shows e grandes depoimentos antigos e atuais.

A carência de registros dos shows brasileiros da história do grupo não atrapalhou a dupla de diretores, que coloca no longa pedaços de um show do grupo em Paris, que descobri depois que foi filmado por uma equipe alemã. Grandes entrevistas atuais com os sobreviventes do grupo, alguns materiais encontrados na Rede Globo e no acervo de amigos, artistas ou não, foram aproveitados com destreza numa montagem excepcional.

Com emoção, vamos descobrindo que poucos dos integrantes da trupe sobreviveram, e com mais emoção ainda conhecemos a história dos treze principais protagonistas de shows memoráveis, seja por imagens antigas, seja por pequenos depoimentos dos integrantes (dos falecidos na época e dos sobreviventes entrevistados para o filme). Mais emoção ainda vem da impressionante lista de depoimentos de artistas como Nelson Motta, Miele, Elke Maravilha, Claudia Raia, Marilia Pêra, Ney Matogrosso, Pedro Cardoso, Miguel Falabella, algumas das Frenéticas, entre muitos outros, uns contando histórias que tiveram com eles, outros reverenciando a influência que tiveram em suas carreiras ou a importância de tanto magnestismo e ousadia numa época de ditadura ainda ferrenha e muita censura. Todos fãs assumidos do grupo.

É importante registrar que em cada depoimento você percebe uma emoção genuína, não forçada apenas por estarem diante de uma câmera realizando uma filmagem, mas sincera, pungente, por relembrarem a importância do grupo não só no cenário da cultura nacional mas em suas próprias trajetórias de vida. Emoção sem pieguice, é bom que se repita, e isso passa para o espectador: não há como não ser tocado por cenas impressionantes como os números de dança de Lennie Dale, pelas palavras de gente talentosa e hoje também pouco reverenciada como como Betty Faria, que deve muito de sua carreira ao excepcional coreógrafo e bailarino. Vale se emocionar também com Liza Minnelli, que foi essencial na trajetória dos shows do grupo na Europa. Imagens de Lennie com Elis Regina são puro êxtase. O filme é uma bela homenagem a todos eles, que mereciam receber uma biografia literária à altura de seus talentos.

Lamento não poder incluir o filme entre os melhores de 2011: afinal, foi exibido em 2010. Mas é sem dúvida um dos melhores que vi nos últimos tempos. Saí do cinema bastante emocionado, por diversos motivos. Não vivi esta época, era apenas uma criança mas, agora adulto e vivendo num país que não conhece mais o termo Vanguarda e numa cidade que já foi o grande polo cultural do país, talvez por tudo isso me sinta ainda mais tocado e comovido… mais ainda por perceber, ao sair da sala escura do Cine Joia, o quanto nossa cultura se tornou, nos últimos 25, 30 anos, limitada, retrógrada, “careta e covarde” (como cantaria Cazuza), pouco inventiva, pouco ousada, pouco inspirada, pouco brilhante.

Tommy Beresford

Site do filme no Wikipédia:
https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Dzi_Croquettes_(filme)

Trecho do filme:
http://www.youtube.com/watch?v=kbOWiPeLAvw&feature=related

~ por Tommy Beresford em agosto, 30 2011.

Uma resposta to “[Resenhas] Dzi Croquettes”

  1. Realmente, a cultura desse país está a cara dos governantes, ou seja, uma hipocrisia só! Se trinta e poucos anos atras se podia montar um espetáculo de vanguarda, com toda censura em cima, hoje, passado todo este tempo, não vemos nada de novo. Apenas uma falsa liberdade norteando o rumo da criatividade. Palmas para Tatiana Issa e Rodrigo Alvarez.

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