[Resenhas] Não Me Abandone Jamais

Destino e esperança são palavras bem a calhar em “Não Me Abandone Jamais“. Ainda é cedo para falar de “melhores filmes do ano”, até porque o ano cinematográfico para mim começa depois da entrega do Oscar. Mas “Never Let Me Go” (título original), no melhor estilo “ame ou odeie”, já entrou na minha lista. Sei que muita gente pode achar sem pé nem cabeça, mas sem dúvida a caprichada e delicada produção é capaz de gerar um questionamento que vai além do que pode ser considerado por alguns apenas como “bizarro” (no caso, o possível destino da clonagem humana e o destino da própria humanidade, com seus questionamentos éticos repensados).

Mas tranquilize-se: não é um filme de ficção científica nos moldes extraterrestres ou cheio de efeitos especiais: tudo é bastante sutil e ao mesmo tempo elegantemente escarrado na cara o espectador, que quando percebe finalmente o mote do filme acaba ficando curioso com os rumos da trama. Embora desde o início possamos ficar intrigados com o simples fato de que não se questiona em nenhum momento a ordem estabelecida, percebemos claramente a lavagem cerebral nas crianças que ainda não supõem o destino a elas traçado desde seu nascimento.

O interessante roteiro (o título tem a ver com uma canção dentro da história, embora enganosamente possa remeter a algo romanticamente leve) foi adaptado por Alex Garland do romance homônimo do escritor japonês Kazuo Ishiguro, publicado em 2005. A fotografia é quase pastel para um filme mezzo triste, mezzo denso, que conta com um elenco atuando na ponta dos dedos. Sorte (ou melhor, boas escolhas) do diretor Mark Romanek, que deu os papéis principais aos excelentes Carey Mulligan (melhor atriz do British Independent Film Awards pelo filme), Keira Knightley (ainda mais magra que o normal) e Andrew Garfield (pouco carismático mas eficiente). Melhor ainda para o diretor foi ter contado com a pequena Izzy Meikle-Small, que interpreta a personagem de Mulligan na infância, na primeira (e melhor) das três partes do filme, além das pontas de luxo de Charlotte Rampling e Sally Hawkins.

Não procure no filme lógica ligada com a realidade, nem coerência de épocas, figurinos, descobertas: não há. Mas faça com que o delicado e muitas vezes assustador filme coloque seus miolos para pensar. Se o presente não é de fato assim, será que o futuro poderá acabar caindo num buraco tão profundo ? Será que o ser humano enterrará ética e bom senso em prol de “resolver seus problemas de saúde” ? Pior: se já soubéssemos a razão de estarmos no planeta e quanto tempo viveremos, será que seríamos mais ou menos felizes (ou será que nos conformaríamos com nosso “destino”) ?

O filme, que não fala de religião — mas é inevitável pensarmos a respeito –, pode ser enxergado por alguns simplesmente como uma metáfora a muitas coisas já vigentes por aí há tantas décadas, séculos, como a divisão de classes, por exemplo. Talvez o dilema ético proposto pelo roteiro acabe soando tosco para alguns por não ter implicações práticas na vida atual, mas não deixa de ser um bom exercício futurístico. E em especial nos faz pensar na relação cada vez mais estranha que o ser humano cultiva com o Tempo… para onde nos encaminharemos, ninguém sabe, mas “Não Me Abandone Jamais” nos permite refletir a respeito. Não como entretenimento, recomendo o filme, mas prepare sua mente para sair pensando sobre muita coisa…

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em março, 28 2011.

2 Respostas to “[Resenhas] Não Me Abandone Jamais”

  1. A história do filme não discute a ética nem os meios pelos quais os resultados serão alcançados. Deixa para nós, espectadores, a discusão de tais meios e se tudo isso será apenas um sonho ou se a realidade já bateu a nossa porta e não sabemos.

  2. Estarrecedor e assustador: mexe com nossos princípios éticos profundamente e faz pensar nas monstruosidades que a humanidade pode fazer. De resto, uma bonita história com atores dos melhores.

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