[Resenhas] Intocáveis

Antes de qualquer coisa, não confundam “Intocáveis” com “Os Intocáveis”, o famoso filme de 1987 de Brian De Palma. Este filme francês de 2011 chegou às telas brasileiras apenas no finalzinho de agosto de 2012 porque… não, não sei o motivo. Mas foi uma das melhores surpresas da temporada nos cinemas brasileiros: o filme dirigido por Olivier Nakache e Éric Toledano é simplesmente imperdível.

A trama poderia ter virado um filme pesado por conta da história de Philippe (François Cluzet, sempre perfeito). Mas sua relação com seu cuidador senegalês, Driss — um jovem a princípio arredio, volta e meia verborrágico e politicamente incorreto, aparentemente inadequado e quiçá sem piedade com alguém que precisa de cuidados, na primeira impressão de muitos — vai além do comovente e não cai no piegas em momento nenhum. Na verdade Driss tem, através de Philippe, uma grande chance de fugir de sua realidade complicada na periferia, e Philippe, através de Driss, uma grande chance de escapar de dias sem esperança e sem estímulos. É através do bom humor e da sinceridade que, com concepções diferentes de vida, um conquista o outro — apego sem pieguice ou falsa compaixão — e sutilmente humanizam dois extremos de uma França moderna mas nem por isso sem problemas: a história originalmente é do início do século 21 (o livro que inspirou o filme é de 2001), mas foi assistida por uma sociedade francesa em plena crise europeia já no início da década seguinte, e talvez isto explique em parte o enorme sucesso do filme em seu país de origem. Mas apenas em parte: certamente o boca-a-boca sobre a excelência do filme ajudou, e ajudará aqui no Brasil também, a incrementar as bilheterias.

Omar Sy

Omar Sy

Inspirado em uma história verdadeira, o pequeno elenco de apoio é ótimo, mas são os dois protagonistas que, transformando um ao outro, também transformam o espectador na sala escura. Omar Sy se tornou o primeiro negro a ganhar um César, em 2012, prêmio que é considerado o Oscar do cinema francês (o filme teve 9 indicações, e Sy concorreu a Melhor Ator com Cluzet e também com Jean Dujardin, oscarizado por “O Artista”), merecidamente: o ator simplesmente brilha e conquista o cinéfilo numa interpretação sensacional. Sy também foi melhor ator no Tokyo International Film Festival e revelação do ano no prêmio francês Étoiles d’Or. A partir de agora, quando ouvir falar de “química entre atores”, sempre lembrarei da dupla Omar Sy e François Cluzet como um dos principais exemplos para a expressão.

Vale a pena citar: aqui no Brasil, dois livros foram lançados em torno do filme. “O Segundo Suspiro” inspirou “Intocáveis”, foi escrito por Phillippe Pozzo di Borgo e lançado no Brasil semanas antes do filme…

“Ele é insuportável, vaidoso, orgulhoso, brutal, inconstante, humano. Sem ele, eu estaria morto por decomposição. Abdel cuidou de mim sem cessar, como se eu fosse um bebê de colo. Atento ao menor sinal, presente em todas as minhas ausências, ele me liberou quando fiquei preso, me protegeu quando eu estava fraco. Ele me fez rir quando eu não aguentava mais. Ele é meu diabo guardião.”

Já “Você Mudou a Minha Vida” é a visão de enfermeiro argelino Driss, que na verdade se chama Abdel Sellou. Fiquei com muita vontade de ler. Os dois.

Não perca. Filme do ano: assistir a esta bela produção vale muito a pena. Aproveitar a vida também.

Tommy Beresford

Em tempo: caso você tenha chegado aqui procurando alguma resenha crítica do filme para um trabalho escolar, lembre-se que o nome do autor e, em especial, o estilo de quem escreve fazem a grande diferença (e não enganam o professor, ainda que você mude uma parte ou outra do texto).

~ por Tommy Beresford em setembro, 06 2012.

3 Respostas to “[Resenhas] Intocáveis”

  1. Muito boa a sua resenha!

  2. Meu prezadíssimo Tommy sua resenha está ótima e é uma daquelas em que concordo com tudo: ou quase… 😉

    Concordo com tudo sim, AMEI o filme… lindo, tocante, delicado, forte, sem rodeios. Para quem viveu com um deficiente, um retrato perfeito do que É um deficiente, pelo menos os “cabeças boas”, que usam o bom humor para rir de sua situação que pode ser “de piedade” para muitos mas, para quem se detém um pouquinho e observa, dá pra contornar com uma das armas mais poderosas sobre a face da Terra: o riso.

    Perfeitos os atores, todos, como bem o disseste. Lindo ouvir “Earth, Wind and Fire” num filme destes e também, ouvir beeem a trilho sonora, que é uma graça! 😀

  3. Eu gostei da resenha, e como é um trabalho de escola, eu estava pesquisando imagens para o trabalho e achei esse site interessante.
    E não, não vou copiar isso para o meu trabalho, eu sei que tenho capacidade para fazer um sozinho. Eu vi o filme e achei muito legal, melhor que alguns filmes que vi na escola, e engraçado mas tem aquela pontada de seriedade.
    Parabéns sobre a resenha

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