[Resenhas] Gonzaga – De Pai Para Filho

Um cinéfilo que gosta tanto de música como eu sem dúvida esperava por “Gonzaga – De Pai Para Filho” com grande ansiedade. Além de tudo, sempre admirei Luiz Gonzaga e a força de sua música. Mais ainda: sou fã de Gonzaguinha desde criança, cresci ao som de suas músicas e suas letras pungentes sempre me foram inspiradoras. Não tinha como não me emocionar ao assistir ao filme.

A produção de Breno Silveira, porém, não é brilhante. Nada de comparações com o exemplar “Dois Filhos de Francisco”, afinal as duas histórias são bem diferentes, muito menos com seu também recente e igualmente excelente “À Beira do Caminho” (leia a resenha do Cinema é Magia clicando aqui). Mas desta vez Breno não conseguiu, com a história de Gonzagão e Gonzaguinha, levar para a telona uma história tão consistente, apesar da riqueza destas duas biografias. A emoção vem mesmo muito mais de nossa relação prévia com os dois músicos, do inevitável uso da música, do que propriamente das situações mostradas no cotidiano de ambos: há um didatismo quase caricatural em algumas cenas. O núcleo de Gonzaguinha é o que mais sofre, pois nem as atuações de boas coadjuvantes como Nanda Costa, Silvia Buarque e (especialmente) Ana Roberta Gualda traz muita veracidade às situações vividas no Morro de São Carlos e na Ilha do Governador. Falta ritmo (sem trocadilhos musicais) ao núcleo urbano. Já o núcleo nordestino é bem mais feliz. Os clichês do sertão não são páreo para a força das excelentes atuações dos pais de Gonzagão, Claudio Jaborandy e Cyria Coentro.

Adélio Lima e Julio Andrade

Adélio Lima e Júlio Andrade

O grande trunfo do filme vem mesmo dos dois personagens principais, interpretados ao longo do filme por diversos atores. Os que interpretam pai e filho quando jovens (respectivamente Land Vieira e Giancarlo Di Tommaso) são convincentes, e Chambinho do Acordeon foi uma boa escolha, entre cerca de cinco mil candidatos, para Luiz Gonzaga já adulto. Mas são realmente as cenas de Adélio Lima (Gonzaga já mais velho) e Júlio Andrade (Gonzaguinha adulto e já artista consagrado) que carregam o filme nas costas e comovem verdadeiramente o espectador, justamente porque ali há contenção, não há exageros ou clichês. Júlio, por sinal, tem uma história impressionante, pois foi literalmente “fantasiado” de Gonzaguinha para os testes: se Breno Silveira levou sete anos para conseguir tirar do papel seu projeto, Júlio conquistou o papel em poucos minutos (veja uma entrevista com o ator neste link ou então neste outro), logo no início dos testes. Os dois estão excelentes.

Muito mais focado na história do pai, o filme acaba pecando em mostrar poucas canções de Gonzaguinha, talvez apenas 3 ou 4, embora sempre tocantes, em especial “Com a Perna no Mundo”, onde cita sua querida Dina: chorei baldes em todas elas. Merece menção a montagem de Vicente Kubrusly, que usa imagens reais de arquivo pontuando alguns momentos da vida dos dois, gerando assim um aval documental que se integra bem à narrativa do longa, lembrando sempre ao espectador a proximidade da ficção com a história real da trajetória de pai e filho.

Não posso deixar de citar também João Miguel (aliás, protagonista do já citado À Beira do Caminho): filme brasileiro sem João Miguel não é filme brasileiro. Em apenas uma cena, o protagonista de “Estômago” brilha intensamente. De resto, para quem gosta muito de música e admira a trajetória destas duas lendas da música nacional, não percam.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em outubro, 30 2012.

3 Respostas to “[Resenhas] Gonzaga – De Pai Para Filho”

  1. A sua resenha está coerente. Filme didático, mas emocionante, principalmete para quem aprecia os dois artistas.
    A atuação de Julio Andrade, um primor! Lamento que o João Miguel só fez uma ponta… Ele é ótimo!

  2. Amei muito esse filme, pois p/ mim é um privilegio mora no nordeste e ter como grande influencia o nosso guerreiro Luiz Gonzaga. Foi e é um trabalho bastante importante para nosso Brasil.Moro em uma comunidade aonde podemos dizer q ainda podemos ver e viver um pouco da cultura nordestina, e neste ano tenho um grande privilegio de estudar e me aprofunda nas obras de Luiz Gonzaga o rei do baião.

  3. […] É óbvio que qualquer filme de qualquer duração seria insuficiente, mas Elis Regina merecia mais, e mesmo a excelente peça de teatro “Elis, A Musical”, aplaudida por milhares de pessoas com Laila Garin no elenco, foi bem mais profunda e abrangente. Falta mais Elis nos festivais, falta mais foco na carreira tão profícua da artista e em suas relações com os compositores que lançou, por exemplo. Falta mostrar pelo menos um pouquinho mais sobre o cenário musical em torno de Elis na época. Ao escrever esta resenha, me lembro do incrível “Uma Noite em 67”, extremamente bem sucedido em nos transmitir esse sentimento, essa aura musical condensada, no caso do documentário, em apenas uma noite. “Dois Filhos de Francisco” é um ótimo exemplo de cinebiografia de excelência, e mesmo o recente e apaixonante “Eu Sou Carlos Imperial” e a ótima cinebiografia de Tim Maia foram mais eficientes, isso sem citar filmes que, se não foram brilhantes, serão sempre lembrados, os mais antigos como “Cazuza – O Tempo Não Para” e “Gonzaga, de Pai para Filho“. […]

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