[Resenhas] Anomalisa

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Quando alguém pensa em filme de animação, o que em geral vem à mente é um desenho para crianças. “Anomalisa” é um filme para adultos, e isso não o impede de concorrer ao Oscar ou sair vencedor de diversas premiações (até o momento dessa resenha, levou os prêmios do Boston Society of Film Critics, Indiana Film Journalists, Los Angeles Film Critics Association, San Diego Film Critics Society e San Francisco Film Critics). O principal motivo de sua excelente aceitação é o nome de Charles Kaufman nos créditos. Premiado como roteirista de “Quero ser John Malkovich”, “Adaptação” e “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, entre outros, Kaufman roteirizou e dirigiu “Anomalisa” depois de muitos anos sem mandar para as telas nenhuma obra que atiçasse o público como em seus filmes mais famosos (“Sinédoque” é de 2008).

Mas não se iluda: “Anomalisa” não chega a ser um filme brilhante. A história é interessante e apresenta uma sociedade “padronizada” em torno de Michael Stone, o protagonista do longa. Pode parecer que é apenas em Cincinatti, mas isso cabe ao espectador deduzir: o filme carece em vários momentos de explicações (como a busca do protagonista, no meio da noite, por um amigo “do nada”). Não fica claro para os espectadores se são “seres reais” , mas o que Kaufman pretende é deixar a reflexão no ar justamente a partir do desequilíbrio do protagonista e da estranheza sobre os personagens, que já começa por suas vozes (só há três dubladores no longa, David Thewlis, Jennifer Jason Leigh — que dubla a outra protagonista, Lisa — e Tom Noonan). Michael encontra em Lisa justamente o que muitos chamariam de “pessoa comum”, a única referência de diferenciação entre tanta pasmaceira quase robotizada (e isso talvez explique a cena do espelho do banheiro ou a do pesadelo, quando ele corre pelo corredor)…

No final das contas, o que é real e o que é distúrbio? Quais são as nossas neuras e o que (ou quem) de fato é passível de controle e de convívio? Quem são os normais e quem são os perturbados, e para quê de fato servem mais rótulos e classificações em um mundo já tão complicado? Talvez haja mais premissas em “Anomalisa” do que de fato explicações, talvez o problema do filme (se enxergarmos assim) seja que Kaufman “levanta bolas” às vezes genéricas demais e deixa quase tudo no ar. O resto fica por conta do espectador. Mas… não é assim que, há mais de cem anos, funciona o cinema? Num ano em que filmes como “Spotlight” e “A Grande Aposta” são quase didáticos, não vejo nenhum problema em um filme de animação deixar questionamentos. “Anomalisa” deixa lacunas, mas só perderá o Oscar para outro filme que permite botar a mente pra pensar bem acima da média, “Divertida Mente”. Que bom que seja assim.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em fevereiro, 02 2016.

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