[Resenhas] Estômago

Sem chegar a ser uma obra-prima, “Estômago” é sem dúvida um dos melhores filmes brasileiros produzidos nos últimos anos – e falo sem medo de ser injusto com outros que deixei passar e não assisti.

E esta nem é a impressão inicial do filme: tal como num banquete gastronômico em que os pratos são servidos um a um e vão abrindo, gradativamente, apetite e paladar do cliente, “Estômago” vai conquistando o espectador aos poucos, crescendo em curiosidade e sensações. Inclusive gastronômicas: o filme literalmente dá fome. A observação na ficha do IMDB é bem interessante: “In the great restaurant of life, there are those who eat and those who get eaten”.

“Estômago” é mais uma produção que me conquistou pelo trailer, mas ao mesmo tempo fiquei desconfiado que pudesse ser mais uma que explorasse as agruras da pobreza brasileira – em geral o estereótipo nordestino, pelo que se supunha pelo sotaque do protagonista. Há, de fato, elementos que estamos mais que acostumados a ver em produções nacionais, boas ou ruins: migração para o Sudeste, a realidade das cadeias, mas tudo isso é tratado com destreza apenas como pano de fundo para um roteiro conciso, criativo, com bom humor e ótimo sabor.

João Miguel está se especializando em filmes elogiados pela crítica: em três anos, fez “Mutum”, “Deserto feliz”, “O céu de Suely”, “Eu me lembro”, “Cinema, aspirinas e urubus” (pelo qual ganhou diversos prêmios) e “Cidade baixa”. Como não assisti a nenhum, resta-me prestar-lhe toda a reverência apenas por “Estômago”: está soberbo como o protagonista que aprende a cozinhar para não ser devorado. Em dois núcleos paralelos mas igualmente cativantes, Fabiula Nascimento (Iria), Babu Santana (Bujiú), Carlo Briani (Giovanni) e Zeca Cenovicz (Zulmiro) são apenas alguns dos excelentes coadjuvantes, com Paulo Miklos fazendo com competência uma ponta de luxo.

Uma escatologia aqui, muitos palavrões aqui – todos perfeitamente adequados às circunstâncias – “Estômago” tem uma direção segura: um excelente filme dirigido por Marcos Jorge (em seu primeiro longa, e do qual também é um dos roteiristas). Literalmente delicioso.

Em tempo: caso você tenha chegado aqui procurando alguma resenha crítica do filme para um trabalho escolar, lembre-se que o nome do autor e, em especial, o estilo de quem escreve fazem a grande diferença (e não enganam o professor, ainda que você mude uma parte ou outra do texto).

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em abril, 29 2008.

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