[Resenhas] Marguerite / Florence

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Ter assistido a “Florence – Quem É Essa Mulher?” poucos dias depois de “Marguerite” fez com que meu lado de “cinéfilo sem expectativas” desse lugar a um espectador curioso por comparar dois filmes (coisa que detesto), ainda que eu desconfiasse que se tratavam de obras bastante diferentes em torno de um mesmo tema. Felizmente, ambas as experiências na sala escura resultaram em muito prazer: são dois filmes excelentes.

De fato, são duas obras cinematográficas bastante distintas. Não pesquisei ainda se há livros à venda sobre a vida de Florence Foster Jenkins, figura real da cena musical americana dos anos 40, a fim de conhecer melhor a vida da artista, mas é bem provável que a produção da BBC tenha ficado mais próxima da história real desta “cantora rica” que tinha óbvios problemas de auto estima e que não recebia dos que a cercavam um feedback verdadeiro do que musicalmente exercia sobre os ouvidos alheios.

Dirigido com maestria por Xavier Giannoli, “Marguerite” é um lindo longa francês e, embora com boas pitadas de humor em diversos momentos, é um filme triste. A produção é bastante esmerada e tem um excelente elenco. Num delicado trabalho de interpretação de Catherine Frot, premiada pelo papel com o César, o diretor “Marguerite” conseguiu trazer com delicadeza para as telas um roteiro que baseia o drama de Florence (aqui chamada Marguerite) em sua incapacidade de enxergar a realidade — ou dela fugir — mostrando desde as primeiras cenas como o viés interesseiro das pessoas que a rodeavam poderia ser a principal causa de sua falsa auto imagem.

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Em “Florence”, de Stephen Frears, corre-se o risco de concluirmos o oposto: bem menos “reclusa” que Marguerite (que vivia praticamente num gueto de falsos amigos), Florence parecia não levar tanto em consideração o que pensavam dela, apenas vivia da forma que bem queria seu “talento” com a tranquilidade de fazer o que desejava. Mas, em ambos, esse paradoxo pode ser apenas a visão com que o espectador emocionadamente entende a forma com que Marguerite e Florence encaravam o mundo que as cercava, seja como incapacidade de perceber a falsidade dos aplausos, seja como auto defesa: talvez um misto das duas coisas, nunca saberemos. Em ambos, porém, fica clara a super proteção de seu marido, que impedia que chegassem a ela as verdadeiras impressões sobre seus problemas artísticos.

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Tal como a atriz francesa, Meryl Streep também brilha intensamente no papel de Florence, mas no filme de Frears o drama pessoal da cantora é apresentado de forma mais “distribuída” entre dois outros brilhantes protagonistas. Hugh Grant talvez tenha interpretado o melhor papel de sua carreira como o esposo dedicado: neste filme, porém, o marido concilia uma “vida paralela própria” com a dedicação total à carreira da esposa, enquanto que no drama francês o esposo (também ricamente interpretado por André Marcon) é apresentado como alguém que, embora zeloso e extremamente apaixonado por ela, “foge” dos momentos de fracasso da mulher — ainda assim, o marido interpretado por Marcon apresenta durante o longa uma transformação que mostra uma real e crescente abnegação pela esposa, que vai bem além do que pensa o resto do mundo.

Em ambos os filmes, há um terceiro personagem protagonista, que rouba várias cenas e que atua como suporte para a personagem principal. No filme francês, Denis Mpunga brilha intensamente como o mordomo da casa, e em “Florence” é Simon Helberg (o Howard de “Big Bang Theory”) quem impressiona em grande interpretação do pianista acompanhador da cantora. Em ambos os filmes, alguns personagens paralelos dão uma pitada maior de comicidade (caso do instrutor vocal do filme francês — ótima interpretação de Michel Fau — e da socialite afetada de Nina Arianda no longa em inglês). Mas em “Florence” há menos papéis de importância ao redor, a história é focada basicamente no trio principal. Em Marguerite há mais tramas paralelas, e algumas quase se tornam desnecessárias no decorrer do filme, mas o drama é todo focado na protagonista.

“Florence” não é uma comédia rasgada, nem pisa forte no histriônico ou no pastelão: Frears deixa Streep livre para construir mais uma grande personagem intensa mas que não cai no caricato. Ainda assim, na sessão de “Florence” houve quem se debruçasse descontroladamente nas poltronas ante o riso frouxo, literalmente gargalhando com o fracasso vocal da protagonista. Já eu senti mais pena do que vontade de rir. Já “Marguerite”, que transfere para a trama uma “licença poética”, quase mágica, muito interessante e que vai além da mudança de língua e ambientação, é um filme onde fica difícil conter as lágrimas. No fundo, “Marguerite” é um forte drama com traços de comédia; “Florence” é uma comédia com fortes traços de drama. Ambos recomendáveis, ambos exemplos de bom cinema. Não percam.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em julho, 11 2016.

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