[Resenhas] Shortbus

Definitivamente “Shortbus” não é o que podemos chamar de “filme fácil”, nem para produzir nem para assistir. Para a produção, o diretor John Cameron Mitchell teve que abrir testes para atores profissionais ou amadores: nas palavras do próprio, ele “não queria astros, pois astros não fazem sexo”. Para (muitos d)os espectadores, talvez esta seja justamente a maior dificuldade. As cenas de sexo são realmente explícitas: genitálias, posições, orgasmos, secreções e intimidade estão escancaradas num filme que, ainda assim, não pode e nem deve ser rotulado como “pornô” ou “filme de sexo explícito” simplesmente. “Shortbus” não é, portanto, um filme fácil de se gostar.

Das centenas de candidatos aos diversos papéis (a produção recebeu cerca de 500 gravações com depoimentos diversos), 40 foram selecionados, entre protagonistas e coadjuvantes. E todos se esmeram em dar ao filme justamente a sua maior qualidade e sua maior polêmica: o que eu chamaria de “não-pudor”, sem que isso deva ser traduzido como “meras cenas de sacanagem ou suruba”. Essa mistura de atores pouco experientes e rostos pouco conhecidos (mas nem por isso pouco talentosos) deu autenticidade e até sutilezas que são difíceis de encontrar em filmes onde sexo se faz presente todo o tempo.

Mas é preciso deixar claro que “Shortbus” não é um filme sobre sexo, e sim sobre relações. E reações: reações a um mundo onde viver à flor da pele (e desejos) é andar a cada segundo numa corda bamba entre a assunção (de posições e comportamentos), a privacidade (do que ser quer ou não quer expor) e a hipocrisia (dos que querem que todo mundo levante todo tipo de bandeiras o tempo todo, mesmo que o “todo mundo” não o queira ou não o ache necessário). Muitos parênteses no texto, muitos parênteses na tela: no fundo, nem tudo é tão explícito quanto pode parecer.

O filme mistura personagens de todo tipo. Um deles (vivido por Paul Dawson, excelente) registra em vídeo seu cotidiano, entre masturbações, carências, incertezas e sua relação com o namorado (PJ DeBoy). Viram pacientes de Sofia (Lee Sook-Yin), que transa compulsiva e atleticamente com o marido mas jamais chegou ao orgasmo: ironicamente, ela é uma terapeuta de casais, e se torna amiga de Severin (Lindsay Beamish, outro destaque), que ganha a vida como dominatrix, mas é cheia de complexos e frustrações. Estes e muitos outros acabam se enredando em um local comum: um clube de Nova York (cujo nome é que dá título ao filme), “hippie, mas sem a esperança”, como o define seu administrador, a drag Justin Bond (interpretando ele mesmo, um dos pontos altos do filme).

O grande destaque é, definitivamente, o elenco. O filme acaba sendo uma colcha de retalhos de colorido muitas vezes forte demais: ao sair do filme, percebemos que o filme sobreviveria bem sem as cenas iniciais, que assustam o espectador menos avisado e não são tão necessárias para explicar a trama. Seja como for, o componente sexo durante o filme (em especial na segunda metade, quando a ação se transfere definitivamente para Shortbus) é, apesar dos excessos, parte integrante e totalmente bem inserida no contexto deste enredo que, entre questionamentos dos mais variados e personagens bizarros, mostra-se às vezes delicado, às vezes indigesto e sombrio.

No fundo, “Shortbus” é um filme sobre amor e medo; faz rir, choca e também emociona – não necessariamente a todos, nem nos mesmos e exatos momentos. Com ótima trilha sonora (com direito a Michael Hill e Yo La Tengo), o filme cresce até chegar num final apoteótico. Entre (quase) mortos e feridos, cabe à imaginação de cada um que assiste tentar adivinhar o futuro de cada personagem; cabe ao espectador decidir se presta mais atenção ao grandiloqüente ou às nuances; cabe ao cinéfilo, se conseguir deixar seus preconceitos de lado, decidir se gostou ou não gostou deste filme. E pensar a respeito: não dá é para sair do cinema simplesmente indiferente.

~ por Tommy Beresford em outubro, 08 2008.

2 Respostas to “[Resenhas] Shortbus”

  1. Se o objetivo do filme era escandalizar, ele consegue logo nas primeiras cenas. Se o desavisado espectador não leu sobre o filme e tenha levado um parente, etc, certamente vai querer sumir na poltrona do cinema. Mas o filme é até leve e divertido.

  2. Certamente é impossível sair indiferente.

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