[Resenhas] Django Livre

Quando saí do cinema depois de ter assistido a Django Livre, lembrei logo de minha resenha de Histórias Cruzadas. Não, nada a ver com o fato de ser um filme onde a temática negra se sobressai, e sim pelo fato daquela resenha começar com “Seis mulheres”. Então…

Seis homens.

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Na verdade, a frase deveria ser “Sete homens”, mas Franco Nero (e sua luvinha que remete ao “Django” da década de 60) tem participação pequena demais entre os coadjuvantes do ótimo elenco, então o primeiro dos seis homens citados será mesmo Don Johnson, que merece menção acertando em cheio em seu Big Daddy, nem parecendo aquele ator canastrão de tantas passagens pela TV (Miami Vice especialmente) e cinema (Machete, para citar uma recente e também sanguinolenta).

waltz

Christoph Waltz concorre por Django Livre ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, categoria que já faturou por este filme no Globo de Ouro, no Austin Film Critics Association Awards, no Central Ohio Film Critics Association Awards e também no San Diego Film Critics Society Awards. Seu principal concorrente no Oscar é Philip Seymour Hoffman, que já levou pelo menos 7 prêmios na temporada por “O Mestre”. Em Django, Waltz está maravilhoso: bastaria a cena em que seu personagem Schultz, ao lado de uma fogueira, conta histórias para Django. Waltz mereceu os prêmios que conquistou e, se levar o Oscar (concorrendo, só para completar, com outros quatro candidatos já oscarizados), merece o prêmio. Inteligente, sarcástico, falastrão e ainda assim muito simpático, Waltz brilha intensamente.

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Leonardo DiCaprio quase esteve em “Bastardos Inglórios“, filme anterior do diretor: ele era a primeira opção para interpretar o papel de Hans Landa, mas o diretor decidiu escalar um ator fluente em alemão (justamente Christoph Waltz). Por Django Livre, DiCaprio levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pelo National Board of Review, mas foi esnobado no Oscar: não levou a indicação. Injusto. Seu fazendeiro Calvin Candie é simplemente soberbo. Como curiosidade, observem o ápice de seu discurso à mesa, em que sua mão aparece sangrando: o ferimento foi real, e Tarantino resolveu não cortar a cena e acabou aproveitando-a. Astuto, enérgico, cruel, DiCaprio está um monstro de talento no filme. Chega a emocionar ver como ele se tornou um ator versátil e inteligente na criação de um personagem difícil como este.

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O que dizer de Samuel L. Jackson ? Sob forte maquiagem e evitando ao máximo a caricatura, seu Stephen é impecável (com ou sem trocadilho com seu trabalho na “casa branca” de Calvin Candie). Tanto no cômico quanto no trágico, quase rouba o filme inteiro. Bastaria a cena em que senta na biblioteca com o patrão. Grande ator, sempre: intenso e odioso, completa com DiCaprio e Waltz a tríade de ouro que faz o filme ser simplesmente imperdível. Palmas para Tarantino que os dirigiu tão bem, mas seus talentos individuais estão aos borbotões, para o deleite do espectador.

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Reza a lenda que Tarantino escreveu o personagem Django pensando em Will Smith, mas o ator acabou não aceitando o papel. Chris Tucker, Idris Elba, Terrence Howard e Tyrese Gibson também estiveram cotados, mas… thanks God. Ainda que não brilhe como em outras produções, Jamie Foxx está perfeito no papel principal. Sua raiva é contida e bate um bolão diante do tipo verborrágico que Christopher Waltz constrói tão bem. Uma curiosidade: Jamie Foxx usou seu próprio cavalo, Cheetah, no filme, e há uma cena em que ele exibe o adestramento de seu animal. Outra curiosidad interessante é o fato dos personagens de Foxx e Kerry terem sido criados como ancestrais de John Shaft (dos filmes de Shaft): o nome completo da personagem de Kerry é Broomhilda Von… Shaft.

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Quentin Tarantino foi esquecido nas indicações a Melhor Diretor do Oscar, mas Django Livre concorre ainda, além da indicação a Waltz, ao Oscar de Melhor Filme, Melhor Edição de Som e Melhor Fotografia (os favoritos para este último, porém, são “As Aventuras de Pi” e “007 Operação Skyfall” que, juntos, já levaram mais de 10 prêmios na temporada). A maior chance de Oscar está em sua quinta indicação, na categoria Roteiro Original, pelo qual já foi laureado no Globo de Ouro, no Critics’ Choice Movie Awards e no Hollywood Film Festival, mas enfrenta concorrentes de peso: os também premiados A Hora Mais Escura (roteiro de Mark Boal) e Moonrise Kingdom (de Wes Anderson e Roman Coppola). Em meio a um elenco tão afiado (por ele mesmo), a breve participação de Tarantino como ator no final do filme é quase constrangedora, mas seu trabalho como diretor é excepcional.

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Não posso deixar de citar a ótima interpretação de Kerry Washington (segundo filme em que ela e Jamie Foxx e interpretam um casal, o primeiro foi “Ray”, que deu o Oscar a Foxx), a fantástica fotografia e a excelente e eclética trilha sonora. Curiosidades finais: o nome original de Django Livre e “Django Unchained”, mas por pouco o filme não se chamou “The Angel, the Bad and the Wise”, como homenagem a Sergio Leone (que teve um filme com este título e que foi lançado no Brasil com o nome de “Três Homens em Conflito”). E há uma cena adicional ao final dos créditos, mas que não compromete em nada se você a tiver perdido.

Como citei na resenha de Bastardos Inglórios, confesso que não gosto de assistir a filmes — por melhores que sejam — que remetam a passagens tão cruéis da história da humanidade, como o extermínio dos judeus na Segunda Guerra. Já a questão dos escravos me toca profundamente, sempre. Tive que me “preparar” para assistir a este filme, ainda mais sabendo da dose cavalar (ops) de violência que Tarantino usaria (e usou, muita). Mas não me arrependi: ouso dizer, no meu gosto pessoal, que este é o melhor filme de Tarantino, entre tantos outros excelentes. Não percam.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em janeiro, 21 2013.

5 Respostas to “[Resenhas] Django Livre”

  1. vale o ingresso. pode ser visto em qualquer categoria: violência, comedia, drama, musical, bang-bang, etc. diversão garantida. gostei muito.

  2. Sem sombra de dúvida uma obra-prima,um filme surpreendente e histórico sobre um período sombrio dos Estados Unidos.
    Tarantino é um gênio!

  3. Gostei da resenha como gostei do filme – não senti as horas passarem…um filme surpreendente, tem história, comedia, drama, muita música enfim, vale o ingresso e muito mais.

  4. […] do André Lessa, no Luz, Câmera, Redação, com uma análise minuciosa e interessante. do Tommy Beresford, no Cinema é Magia, que fala dos seis homens essenciais no filme. da Lola Aronovich, no Escreva […]

  5. Fantástico. Como toda gente o disse, um filme fantástico. Incrpível a mistura “meio bang-bang (que ODEIO!) com a escravidão nos EUA…
    Tarantino é bom. Muito, muito bom. Difícil despejar mais louros sobre ele.
    Concordo com seu destaque para “os seis homens”, amigo Tommy, apesar de ficar com os primeiros três. Dei uma gargalhada qdo reconheci Don Johnson num papel ‘decente’. Waltz, que dizer de Waltz? Nasceu para brilhar in-ten-sa-men-te em tudo que faz… E Jackson, ‘just perfect’! A cena da biblioteca entra para as minhas preferidas.
    Incluiria talvez “o quarto homem”: Foxx. A cada dia, melhor.
    Discordo de di Caprio, como sempre: achei que fez uma bela interpretação, mas não consigo ‘engolí-lo’ como um bom ator. Pra mim é um ator e ponto, nada mais.
    ADORO a participação pequena e quase apagada de Tarantino em quase todos os seus filmes – sempre uma graça. Assim como AMEI ver Franco Nero…
    Enfim, que dizer mais desta maravilha do cinema? De fato, como todo mundo disse, pode entrar na categoria drama, suspense, história, comédia (sim, eu ri em alguns momentos!) e até… bang-bang! :-O
    Adorei!

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