[Resenhas] Clube de Compras Dallas

Quando fiz recentemente a resenha de “O Lobo de Wall Street“, destaquei as excelentes interpretações de Leonardo DiCaprio, como protagonista, e Jonah Hill, como coadjuvante, ambos concorrendo ao Oscar 2013/2014 nestas categorias. Mas é em “Clube de Compras Dallas” que estão os dois prováveis vencedores: Matthew McConaughey e Jared Leto são o que há de melhor no ótimo filme de Jean-Marc Vallée, que concorre a outras quatro estatuetas (Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem e Melhor Maquiagem).

O AZT parecia uma esperança, nos anos 80, para o que preconceituosamente era chamado de “câncer gay”. Embora atuasse apenas nos EUA, as declarações da sua agência de medicamentos eram levadas em consideração de forma muito influente mundo afora e, por conta da força da poderosa indústria americana de remédios, a FDA tentava impor o AZT como a única possibilidade de tratamento para a AIDS, mesmo sabendo que a droga matava não somente as células daninhas como as células boas e que, assim, os efeitos colaterais eram devastadores e não aumentavam a qualidade de (sobre)vida dos infectados. Ron Woodroof, personagem de Matthew McConaughey, não era homossexual nem médico, era apenas um texano beberrão que pegou HIV por seringas contaminadas e por transar sem proteção. Ao descobrir que tinha o vírus e, segundo os médicos locais, apenas alguns dias de vida, Ron resolveu correr atrás de informação, a princípio apenas para prolongar sua própria sobrevivência, mas depois criando uma rede de ajuda ao crescente número de infectados, vendendo uma panaceia que formava as primeiras tentativas de coquetéis de medicamentos que, ainda que proibidos nos EUA, prolongavam de forma significativa a vida dos doentes. Tudo isso numa região mergulhada em preconceito e discriminação, seja de pessoas comuns, seja das autoridades descrentes e cerceadoras.

Matthew McConaughey premiado no Globo de Ouro (janeiro de 2014)

Matthew McConaughey premiado no Globo de Ouro (janeiro de 2014)

Numa atuação convincente e minuciosa, McConaughey mostra as mudanças na vida de um protagonista que inicialmente parece uma pessoa repulsiva, e brilha ao contar com um parceiro à altura: Rayon, um homossexual afeminado mas sem caricatura, é interpretado na medida certa por Jared Leto, que dá ao personagem carisma e sensibilidade sem pieguices, e assim conquista o espectador (e quase todos os prêmios de coadjuvante do ano). Com Rayon por perto, o Ron Woodroof de McConaughey mostra que a modificação é possível: mesmo que neste caso ela tenha começado pelo medo da morte, ela não cessa com a relativa melhora no seu estado de saúde.

Com baixo orçamento que dificultou até a quantidade e qualidade dos equipamentos utilizados nas filmagens, Jean-Marc Vallée dá ao elenco a liberdade de criar um grande filme, que cresce continuamente até que se torna um pouco repetitivo no final e termina abruptamente. Isso, porém, não diminui a sua qualidade do resultado que o diretor pretendia: retratar, sem se tornar um filme pesado e triste, uma história baseada em fatos reais que foi apenas um dos milhares de episódios terríveis da fase inicial da disseminação de uma doença até hoje fatal mas que poderia ter sido muito mais rapidamente controlada se houvesse um esforço mundialmente conjunto em relação às possibilidades de tratamento.

Jared Leto premiado no Critics Choice Awards (janeiro de 2014)

Jared Leto premiado no Critics Choice Awards (janeiro de 2014)

Jared Leto é o virtual vencedor do Oscar, sem sombra de dúvidas. Matthew McConaughey tem candidatos de peso concorrendo, mas merece também a estatueta por provar que um artista que sempre foi considerado por muitos apenas um “ator bonito” pode mostrar atuações muito bem construídas, e não somente pela modificação física. A relação entre os dois personagens é muito bem construída em cima do ótimo roteiro mostrando que, mesmo numa sociedade (e numa época) extremamente preconceituosa, a visão do ser humano com relação a outro ser humano pode ser modificada sem que isso corrompa suas “convicções sexuais”.

É importante dizer que não há necessidade de comparar o personagem de McConaughey com o construído duas décadas atrás por Tom Hanks em “Filadélfia” (1994). Mas é precisa notar que talvez agora tenha havido ainda mais dificuldade: Hanks lidava com um protagonista que sempre se mostrara uma pessoa boa. McConaughey precisou convencer o espectador da veracidade da transformação de um “vaqueiro macho man”, que vive em um mundo homofóbico e contribui para isso, em alguém que pode se transformar e fazer a diferença. Ambos brilharam em seus papéis. Hanks levou sua estatueta, e torço que McConaughey possa levar a sua 20 anos depois…

No cinema americano, há inúmeros heróis cheios de super poderes e virtudes aparentes… mas ninguém precisa ser santo ou perfeito para ser útil, nem cheio de defeitos a ponto de não poder melhorar e ajudar os outros. Sempre é possível despertar de sua própria ignorância, mesmo que você não a enxergue. E você não precisa se “transformar em” alguma coisa diferente do que é, basta realizar auto-descobertas. Você não precisa ser mulher para defender os direitos das mulheres, não precisa ser negro para lutar contra o preconceito racial, nem precisa ser gay para apoiar os direitos dos homossexuais. E todos morreremos um dia, portanto viva dignamente: seja apenas ou pelo menos um ser humano ético, honesto, correto, com amor no coração e nos atos que pratica, mesmo que este pareça um discurso tolo para alguns, e mesmo que alguns não acreditem que o mundo possa ser melhor.

Tommy Beresford

clubedecomprasdallasfilmeoscar

~ por Tommy Beresford em janeiro, 27 2014.

2 Respostas to “[Resenhas] Clube de Compras Dallas”

  1. Um filme bastante forte, que sai dos padrões das produções americanas. Por abordar um assunto polêmico (ainda), a AIDS continua produzindo vítimas fatais ao redor do mundo. Mais de 30 anos depois de o vírus ser descoberto a vacina ainda é uma miragem, para “alegria” da indústria farmacêutica que continua faturando bilhões. O horror foi bem pior do que mostra o filme e hoje, as novas gerações, parecem não ligar muito para isso. Até quando?

  2. Eu esperava um filme completamente diferente do que vi. “Clube de Compras” pra mim, “cheirava” aos grandes shoppings e lojas dos EUA…
    Kkkkk… quanta diferença… Diante do que vi, “compras” são coisas bem delicadas e simplesmente estar no “clube” é estar “de direito”, morto.

    McConaughey me surpreendeu deveras… eu não conhecia este ator que vi agora… Os filmes que assisti com ele em um papel eram realmente o tipo “galã”, muito distante do Ron deste filme. Uma atuação pra lá de boa que, de fato, merece a estatueta que levou. Leto eu realmente não conhecia, mas fez excelente papel. Também mereceu o prêmio.

    Enfim, um filme pra sentar e assistir de peito aberto. E, talvez, com lágrimas.

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