[Resenhas] Os Miseráveis

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A análise de um filme ou de uma interpretação pode ser feita de várias formas. Pode ser técnica ou apenas apaixonada, profissional ou amadora, pode visar uma publicação para muitos ou apenas uma anotação pessoal, quase reminiscência, pode alimentar um blog ou até o ego do leitor. Seja como for, é sempre subjetiva.

O que muitos acabam não lembrando é do trabalho que dá “construir” um filme e/ou uma interpretação marcante. Quanto ensaio, quanto aparato, quanta dedicação e até sacrifícios. “Os Miseráveis” é um excelente exemplo de grande filme construído por um interminável batalhão (sem trocadilhos) de profissionais movidos muita mais pela dedicação e pelo apuro, sob a batuta de um bom diretor, do que propriamente pela força do dinheiro ou de um grande estúdio. Baseados em uma sinopse bastante conhecida, por demais amada e com carga mais que dramática — a obra lançada em 1862 por Victor Hugo (1802-1885) é imortal –, o desafio se torna ainda maior, afinal Tom Hooper está refilmando uma história aclamada por plateias do mundo inteiro.

Hugh Jackman

Hugh Jackman

Odeio comparações mas sou plenamente sabedor de que são necessárias, especialmente no que se refere a premiações. Como comparar (e escolher um dos) trabalhos tão díspares como o de Daniel Day Lewis — favorito ao Oscar 2012/2013 e vencedor de inúmeros prêmios por “Lincoln” — com o de Hugh Jackman ? Como colocar nesta lista a precisão cirúrgica de Bradley Cooper em “O Lado Bom da Vida”, no melhor papel de sua carreira, e a intensidade explosiva de Joaquin Phoenix, soberbo em “O Mestre” ? E ainda há Denzel Washington no páreo… Complicado.

Seja como for, é preciso destacar desde já o brilhante desempenho de Hugh Jackman, vencedor do Globo de Ouro (Musical/Comédia) pelo papel de Jean Valjean. Cantando como nunca (ou como sempre), intenso sem overacting, ele emociona em todas as fases do filme em um dos personagens mais difíceis que conheço. Seu “opositor”, Russell Crowe, foi criticado por alguns (talvez pelo canto, onde não é brilhante), mas faz um ótimo contraponto ao protagonista, gostei bastante. Todos os coadjuvantes foram muito bem escolhidos, inclusive as crianças. Fiquei bastante impressionado em especial com a Éponine de Samantha Barks, que descobri ser estreante no cinema (e que ganhou a disputa do papel vencendo Taylor Swift, ufa). Apesar de algumas cenas longas demais, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter trazem certo frescor, quase um alívio, a tanto drama, e funcionaram bem juntos, apesar dos exageros do eterno Borat. “Dog Eats Dog”, por sinal, vira trilha de uma das melhores sequências do filme, graças às atuações dos dois. Mas o elenco todo é excelente.

Anne Hathaway

Anne Hathaway

E o que dizer de Anne Hathaway ? É aí que a gente para e pensa: quanto de ensaio, empenho e lágrimas foi necessário para que Anne chegasse com tanta perfeição e genuína emoção a cenas tão colossais quanto às que assistimos em “Os Miseráveis” ? Favorita absoluta ao Oscar e vencedora de quase todas as disputas de Coadjuvante do ano, entre elas Screen Actors Guild, Globo de Ouro e BAFTA, na verdade os prêmios são o que menos importa. Anne brilha intensamente, depois de tantas outras boas interpretações que nos proporcionou, entre grandes e pequenos papéis (inesquecíveis “O Casamento de Rachel” e “O Diabo Veste Prada”). Não destacarei apenas “I Dreamed a Dream”: devastadora o tempo todo, Anne é tudo.

O filme como um todo é esplendoroso (e escolha bem a sala de cinema, um excelente som é obviamente essencial). Desde a impactante primeira sequência de cenas, desde “Look Down”, cantada por Hugh Jackman e Russell Crowe, vê-se que o trabalho do diretor Hooper é delicado, e os grandes closes tornam a história mais cinematográfica que teatral. Em “Os Miseráveis”, aliás, fica claro que o diretor ousa bem mais que em seu recente, comedido e bem sucedido “O Discurso do Rei“: vale lembrar que Hooper colocou os atores para cantar “ao vivo”, ao contrário de gravar as canções previamente em estúdio, como na maioria dos filmes musicais que conhecemos. Deu certo — e olha aí quanto trabalho de ensaio foi preciso, como já citei. Você nunca viu sofrimento tão bem cantado, garanto. Palmas também para o trabalho de direção de arte, minucioso e primoroso. Se for para encontrar alguma ressalva (não, não vou), talvez esteja no ritmo um pouco mais acelerado na primeira meia hora de filme — talvez para capturar o espectador mais facilmente, não sei — mas isso não compromete, já que de fato somos arrebatados logo no início.

Um aviso importante é necessário. Não gosta de musicais ? Não vá ! Não assista para depois ficar comentando “ah, que chato, um filme todo cantado…” Já aviso logo, como se fosse necessário: é, sim, um filme todo cantado. Então vá procurar sua turma e não encha o saco dos que gostam de ir ao cinema para ver todo e qualquer tipo de filme, inclusive o “todo cantado”. Se você, como eu, é deste último time, vá e se deleite. “Os Miseráveis” é um grande filme.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em fevereiro, 14 2013.

2 Respostas to “[Resenhas] Os Miseráveis”

  1. “Os Miseráveis” é um verdadeiro espetáculo de filme. Achei a história cativante, apesar da inconstância do roteiro, especialmente nas cenas do levante popular coordenado por Marius e seus amigos. Apesar disso, acho o trabalho do Tom Hooper muito injustiçado. Ele merecia melhor crédito pelos ótimos elementos do musical, incluindo o grande elenco e as cenas das canções filmadas em close-up.

  2. Sim, meu caro Tommy, um belo (e bastante difícil de se criar…) filme. Gostei de Russel Crowe e esperava tanto por sua cena final (que não sabia se era dele ou de Hugh Grant), que acho que o curti ainda mais. De fato, AMO Day-Lewis, mas Grant, neste filme, está so-ber-bo… Pena o Oscar não ter ido para ele…

    Já o de Hathaway, eu discuto: muito pouco tempo de atuação para um prêmio desses. Mas, olhando suas oponentes, vejo poucas boas opções na categoria. Fica “bem dado” assim.

    E completo, afirmativamente: não dormi e gostei muito do filme “todo cantado” – gosto de musicais mas… nem tanto… – Sinal de que o filme foi muito bem construído! 😉

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