[Resenhas] Assassinato no Expresso do Oriente

Em minhas resenhas, costumo dizer que vou ao cinema sem quaisquer expectativas, devidamente “zeradas” pelo fato de não ler antecipadamente as críticas, evitar as resenhas dos diversos sites e inclusive fechar os olhos quando percebo que o trailer vai contar demais sobre o filme. Mas no caso de uma produção baseada na obra de Agatha Christie, autora que comecei a ler com 13 anos de idade, cujos livros, dezenas, já li diversas vezes e para a qual dedico há anos centenas de posts como parceiro de um blog criado em 2008 chamado “A Casa Torta” — título de um de seus melhores livros –, não havia possibilidade de ir para a sala escura assistir a “Assassinato no Expresso do Oriente” sem ansiedade. Afinal, como vocês sabem, eu, Tommy Beresford, sou um dos detetives da grande dama do mistério… 🙂

Aproveitei e reli o livro (lançado em 01 de janeiro de 1934) poucas horas antes. Estava com tudo na ponta da língua — ou nas células cinzentas, se preferirem –, e já tinha até relevado o visual exagerado de Kenneth Branagh que a imprensa já havia amplamente apresentado. Evitei também procurar a adaptação de 1974, de Sidney Lumet, para evitar comparações desnecessárias. E aí vieram a alegria e a decepção, ao mesmo tempo, em doses fortes.

A versão 2017, dirigida pelo próprio Kenneth Branagh, nos apresenta um filme bem feito, bem produzido, ótima fotografia… para quem nunca leu o clássico de Agatha Christie, é um longa envolvente e intrigante. Mas…

Vamos por partes (e daqui pra frente, no detalhamento, talvez alguns segredos do filme sejam revelados a quem não assistiu: cuidado). A sequência de introdução não existe no livro original, mas é ótima e “apresenta” o grande Hercule Poirot a quem ainda não o conhece. Talvez com excesso de parangolés, mas nada que comprometa ou o denigra.

O maior problema do filme é justamente não se preocupar, quase em nenhum momento, com a fidelidade à obra escrita por Agatha. Não são alterações pontuais: boa parte de tudo que ali é apresentado ficou por demais adaptado, alterado, quase corrompido. Isso não impediu, repito, que Branagh fizesse um ótimo filme, mas é decepcionante para quem tem a trama do crime no famoso trem tão nítida na mente (recentemente, um filme brasileiro também muito bom “cometeu” este pecado grave, “O Escaravelho do Diabo”, coincidentemente um clássico brasileiro da literatura de mistério).

Há alterações demais e, lendo finalmente as críticas brasileiras sobre o filme, vejo que nem todos os que escreveram de fato (re)leram o livro. Há até quem tenha afirmado que Branagh foi “extremamente fiel ao livro”: não, não foi!

Para começar, a história de Agatha possui 17 personagens importantes, que precisavam ter suas características principais respeitadas porque são parte importante e essencial da trama. Um deles, Dr. Constantine, simplesmente não existe no filme, tendo suas características distribuídas entre outros dois: Monsieur Bouc e Coronel Arbuthnot (este, nesta versão cinematográfica, se torna médico, algo impensável no livro).

Há um caso pior: Greta Uhlsson. Inevitável, neste caso, lembrar que a Greta Uhlsson do filme de 1974 foi interpretada por Ingrid Bergman e que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. A personagem, no livro, é uma dama sueca! No filme de Branagh, essa característica é completamente esquecida, já que ela é interpretada por… Penelope Cruz. Oi? Nada contra Penelope, mas além de tudo Branagh a transformou numa beata sem cor e sem sal, que fala de Deus e pecado a cada duas frases, algo que não existe no livro. Por quê? Para quê?

E o que dizer do morto? No livro, Mr. Ratchett é descrito como “um homem de uns 60 ou 70 anos que, de perto, tinha um aspecto suave de um filantropo”. Em outros trechos, acrescenta-se “um animal selvagem, sempre alerta, olhando tudo por trás das grades” com “uma falsa benevolência na expressão e olhos pequeninos e cruéis”… Mas o escolhido para o papel foi… Johnny Depp! Ótimo ator, Depp está muito bem, mas constrói praticamente um gângster, um mafioso que protagoniza uma cena de sedução no corredor do vagão que também não existe no original e que praticamente estraga a relação que ele tinha como Mrs. Hubbard… que era nenhuma! Até a cena do encontro importante com Poirot, que no livro não dá margem a qualquer alteração (“Se o senhor está barganhando por mais, não conseguirá”), no filme quase vira uma livre negociação, pelamor…

Menor incômodo causou outra das alterações no Coronel Arbuthnot, citado acima. No livro ele é descrito como “um coronel britânico licenciado vindo da Índia, alto, de seus 40 ou 50 anos, de figura magra e pele morena, com os cabelos das têmporas embranquecendo”. No filme, Arbuthnot é negro e bastante jovem, interpretado com vigor por Leslie Odom Jr (vencedor do Tony em 2016 como melhor ator de musical por “Hamilton”). Não há nenhum problema do personagem cinematográfico ser negro, mas a questão racial torna-se objeto de discussão em diversas falas, o que não existe no livro. Ter virado médico, o que se sobrepõe à atuação prévia como militar, é bem mais grave, porque cria uma relação dele com o morto que não é citada no livro. Além disso, Arbuthnot participa de duas cenas que sequer seriam possíveis no livro: o atentado à personagem de Michelle Pfeiffer, Mrs. Hubbard, nunca aconteceu! Não há tiro na história original, meu Deus, o que foi aquela cena do tiro? Sem falar no importante encontro dele com Mary Debenham (Daisy Ridley, excelente) que ao invés de ferroviário acontece numa embarcação… Ai caramba…

Além de tudo, talvez para dar ao filme pitadas de ação, foram criadas cenas que simplesmentes destróem as ideias da autora. “O que é” a briga física entre Poirot e Hector MacQueen? Estão loucos? Também não existe na trama original. No filme, Mrs. Hubbard nem fala sobre a filha (no livro ela fala o tempo todo), o conde Andrenyi é um bronco violento, a princesa Dragomiroff parece obcecada com dois cachorros… Muito puxado…

Há outras muitas inexatidões, e uma trilha sonora sofrível. Mas o filme quase se redime de tudo isso com um belo final — ainda que com uma explicação do caso bem mais suscinta que a que gera o ápice do livro de Agatha. É preciso citar que todas essas alterações mexem com os nervos de quem é muito fã. As atuações do elenco estelar (onde estão nomes como Derek Jacobi, Willem Dafoe e Judi Dench) estão todas em alto nível, com destaque para o já citado Hector MacQueen vivido pelo excelente Josh Gad (que brilhou em A Bela e a Fera), mas de fato é Branagh o grande protagonista. Não será meu Poirot inesquecível, mas não destroi o personagem. No final das contas, uma obra cinematográfica muito bem feita que agradará em cheio aos que não conhecem o livro, mas excessivamente INFIEL à obra original e irresistível de Agatha Christie.

Vale lembrar que o final do filme já anuncia uma ida de Poirot ao Nilo, a já propagandeada nova adaptação de “Death On The Nile” que, na sequência cronológica das obras lançadas por Agatha, só acontece 8 livros depois… Enfim… Emocionante para quem nunca a leu; decepcionante para quem a sabe de cor. Um falso brilhante numa embalagem de pão; uma ópera fake numa cestinha bem enfeitada… mas é Agatha, e Agatha é ouro.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em dezembro, 04 2017.

3 Respostas to “[Resenhas] Assassinato no Expresso do Oriente”

  1. Concordo contigo, mas é Agatha Christie e eu adoro cinema, só que nunca um filme vai superar um livro, as explicações, a forma como ela amarra todos os personagens, as explicações, isso só o livro nos proporciona, mas acredito que através de um filme as pessoas passam a querer conhecer melhor a história e vão ler o livro, pelo menos espero, bjs Tommy

  2. Excelente resenha,Tommy! Nada como um conhecedor para por os pingos nos “is”.

  3. Eu gostei do filme. Vi o primeiro e nada me lembrava a não ser o final, mas o que falta nessa versão é glamour, afinal a viagem é no Expresso Oriente, o trem de luxo para pessoas super ricas da época….

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