[Resenhas] Spotlight: Segredos Revelados

spotcartaz

Talvez você não se lembre de como era o jornalismo em 2001… no fundo, não há tanta diferença estruturais, não houve tantas mudanças nesses últimos quinze anos. Talvez menos profundidade agora? Não sei. Mas, quando você pensa em internet em 2001 (sim, o ano que teve os atentados nos EUA como o acontecimento para sempre marcante na história), sem dúvida o mundo é outro. Basta pensar que mal havia blogs (poucos milhares no mundo inteiro em 2001, mais de 100 milhões em 2016), e as redes sociais sequer eram ainda imaginadas (MySpace surgiu em 2003, Orkut e Facebook em 2004). Mas uma fala em “Spotlight”, logo no inicio da trama, situa o filme no tempo e mostra a preocupação que já existia quanto à evolução da rede mundial de computadores: “A Internet está nos matando” , comenta um dos jornalistas do Boston Globe, frase que seria complementada com “O mundo não quer mais jornalismo como o que nós fazemos”… O jornalismo “como era feito” naquela época ainda existe. Naquele tempo, porém, o chamado jornalismo investigativo trouxe histórias como a que “Spotlight” conta de forma tão competente. Mas e as instituições? Será que a pedofilia, tema tratado no filme, ainda acontece na Igreja Católica de forma tão ampla como mostrada no longa de Tom McCarthy? Mais que isso: será que o jornalismo investigativo sério é a única forma de casos como estes virem à tona e serem devidamente julgados e condenados?

O diretor McCarthy tem poucos filmes no currículo mas alguns premiados na bagagem. Seu primeiro longa como diretor, “O Agente da Estação”, de 2003, recebeu várias premiações por seu roteiro, incluindo BAFTA e Sundance. Foi também premiado por “O Visitane” (2007) e indicado a diversos prêmios como roteirista de “Up – Altas Aventuras”. Curiosamente, seu filme anterior a “Spotlight” foi ignorado pela crítica e eu acho que eu fui o único que adorou: “Trocando os Pés”, com Adam Sandler. “Spotlight” já recebeu dezenas de prêmios de Melhor Filme e alguns poucos de Melhor Diretor (Central Ohio Film Critics Association, Las Vegas Film Critics Society e St Louis Film Critics Awards), mas sua indicação ao Oscar tirou do páreo nomes como Todd Haynes (por “Carol”), Ridley Scott (por “Perdido em Marte”) e o estreante que já recebeu alguns prêmios Alex Garland (por “Ex Machina”). Não deve levar (George Miller, por “Mad Max: Estrada da Fúria” é o favorito, com Alejandro G. Iñárritu correndo por fora por “O Regresso”), mas McCarthy faz um ótimo trabalho, muito simples e sem grandes surpresas, mas eficiente especialmente com o experiente elenco que tem nas mãos.

Premiado no New York Film Critics Circle Awards, não considero Michael Keaton o verdadeiro protagonista. Indicado mas derrotado no Oscar 2014/2015 mesmo tendo sido bastante premiado por “Birdman”, desta vez nem foi indicado, mas está muito bem como o chefe da equipe investigativa do jornal. Eu considero Mark Ruffalo como o grande nome do longa. Ruffalo rouba a cena, ainda que seu Michael Rezendes parece, inicialmente, um tanto estereotipado. Indicado a Melhor Coadjuvante, não deve levar a estatueta, mas merecia: simplesmente deslumbrante. Não entendo a indicação de Rachel McAdams, que tirou o lugar de Kirsten Stewart (premiada várias vezes por “Acima das Nuvens”) das indicações: uma atuação burocrática e quase “noveleira”, sua Sacha Pfeiffer não convence. Sinto falta de maior reconhecimento do mega atuante Stanley Tucci, mais uma vez extraordinário num papel pequeno.

Ainda que passado em 2001, o filme é bastante atual, mas não espere grandes arroubos de suspense e surpresas nem mesmo momentos de brilho — talvez reservados somente para os depoimentos das vítimas. O filme também não entra na vida dos protagonistas: você quase nada conhece do cotidiano de cada um, o foco realmente é na investigação em si, além dos bastidores de um grande jornal (melhor explorado, porém, em outros filmes do gênero). O melhor de “Spotlight” é a história em si, sob um roteiro muito bem desenvolvido que, com a direção segura de McCarthy, resulta em um “filmão” daqueles gostosos de assistir. Não sei se leva o Oscar (na verdade, suas maiores chances são apenas duas, Filme e Roteiro Original), nem se será lembrado daqui a alguns anos, mas vale muito a pena o ingresso.

Tommy Beresford

_spotl

~ por Tommy Beresford em janeiro, 22 2016.

Uma resposta to “[Resenhas] Spotlight: Segredos Revelados”

  1. SEN-SA-CI-O-NAL! Filmão mesmo, como a gente gosta de ver, Mr. Tommy. Gostei muitíssimo do desempenho de Keaton – que está velho e bom – e de Ruffalo, sim. Stanley Tucci eu comecei a observar por “sua culpa” e, de fato, arrasa. Não sei o que foi exatamente – a trilha sonora super bonita, eu achei! – mas na soma, o filme é muito, muito bom…
    Não vi os outros concorrentes ao Oscar 2016 ainda, mas… será que tem melhor?

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