[Resenhas] Flores Raras

floresraras

A obra da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop infelizmente é pouco celebrada pelo grande público no Brasil, que carece de incentivos a mergulhos na poesia brasileira, que dirá a mundial. Mais lamentável ainda é que a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares praticamente seja uma desconhecida por aqui. O filme de Bruno Barreto, com bela fotografia de Mauro Pinheiro Jr. e figurinos caprichados de Marcelo Pies, constrói com delicadeza uma ótima oportunidade para que essa história seja descoberta neste nosso país onde a convivência e o romance entre ambas aconteceram de fato.

É claro que a “polêmica” em torno do casal gay, atualmente explorada pela mídia, acaba deturpando as atenções, ainda mais num 2013 onde acontecimentos como o absurdo projeto legislativo de “cura gay” e selinhos protagonizados por lutadores de MMA e jogadores de futebol ainda criam tanta discussão. Como costumo dizer nas redes sociais, “e esse século 21 que não chega…” Mas torço ao menos para que tudo isso colabore para que o público do filme seja o maior possível…

O fato é que a história de “Flores Raras” começa há muito tempo atrás, bem no meio do século 20, mais precisamente em 1951. Foi na década de oitenta, ao ler uma dedicatória em um livro de Elizabeth Bishop (1911-1979), que a escritora Carmen Lúcia Oliveira ficou intrigada com quem seria a tal “anônima” Lota para quem o livro era dedicado. Somente no início dos anos noventa é que Carmen descobriu que Lota era Maria Carlota Costallat de Macedo Soares (1910-1967), uma talentosa artista brasileira conhecida como Lota (ou Lotta) que concebeu a ideia e participou da construção do Parque do Flamengo, hoje um dos mais belos pontos da cidade do Rio de Janeiro (ainda que cada vez mais carente de conservação).

Um livro americano de 1994, “One Art: Letters”, que revelava a correspondência de Bishop, mostrou finalmente ao mundo a ligação amorosa das duas, que durou de 1951 a 1967. Carmen acabou escrevendo e lançando seu elogiado livro, “Flores Raras e Banalíssimas”, em 1995: enquanto as biografias norte-americanas até então priorizavam apenas a vida de Bishop, o livro da escritora brasileira detalha a vida de Lota e sua relação com a escritora, e também cita fatos históricos e os personagens que deles participaram, como o político Carlos Lacerda, também presente no filme.

Gloria Pires interpreta Lota de Macedo

Gloria Pires interpreta Lota de Macedo

Bruno Barreto consegue levar para as telas muita coisa boa da história original, mesmo que o cinéfilo possa ficar de alguma forma incomodado, em especial na primeira metade do filme, com uma certa dureza, que creio que vem mais do roteiro que da direção, em relação ao comportamento de Lota e Bishop — individual e também como casal. A primeira quase sempre aparenta ser dura demais, e a segunda por demais frágil. Mas é justamente aí que entra o talento de Gloria Pires e Miranda Otto, as grandes protagonistas do filme. Num jogo de sutilezas, Gloria consegue amenizar o jeito extremamente árduo com que o roteiro parece descrever Lota, e Miranda emociona o público sem que a poetisa parece apenas uma mulher deprimida em excesso.

Elizabeth Bishop é vivida por Miranda Otto

Elizabeth Bishop é vivida por Miranda Otto

Recomendo imensamente o filme, que me emocionou também por toda a questão poética e pelo belíssimo local onde ambas moravam — saí apaixonado por Samambaia e pelas construções de Lotta que serviram como sua moradia por tantos anos. Faço uma torcida dupla: torço para que o público vá aos cinemas sem preconceitos, e torço para que o lançamento do filme nos Estados Unidos seja bem executado, de forma que permita que tanto Miranda Otto quanto Gloria Pires possam ser lembradas nas premiações, ao menos com merecidas indicações. Passar pelo funil do Globo de Ouro e, em especial, o do Oscar é mais complicado, mas ainda assim ficarei na torcida.

Tommy Beresford

flores_raras_gloria_pires_e_miranda_otto

~ por Tommy Beresford em agosto, 23 2013.

5 Respostas to “[Resenhas] Flores Raras”

  1. Um filme belíssimo. Bruno Barreto conseguiu, com muita delicadeza e emoção, transpor os sentimentos conflituosos das personagens. As atrizes dão um show a parte.

  2. belissimo. amei como o bruno barreto coloca as cenas de carinho delas,com sutileza e muita sensibilidade.ele (BRUNO) MOSTRA QUE UMA RELAÇAO GAY NAO E PROSMICUA COMO TODOS JULGAVAM QUE FOSSE.PARABENS

  3. Republicou isso em Blog do Rogerinho.

  4. Oi adorei…muito obrigado, me fez se interessar pelo livro….mas vc já leu o livro reversoescrito pelo autor Darlei… se trata de um livro arrebatador…ele coloca em
    cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos…..e ainda inverte de
    forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar
    verdades sobre Jesus jamais mencionados na história…..acesse o link da
    livraria cultura e digite reverso…a capa do livro é linda
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?

  5. Republicou isso em Aluciaartes1000's e comentado:
    I loved this!

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