[Resenhas] Nada Além de Flores

Assistir ao curta “Nada Além de Flores”, de Eduardo Albuquerque, nos remete ao “trancamento” que nos “proporcionou” a pandemia: as questões de, repentinamente, sem nunca ninguém esperar, estarmos trancados “no nosso mundo”, aquele que a gente constrói durante anos para, na verdade, não estarmos “dentro” dele e sim na rua, no trabalho… O que fazer quando é você com você mesmo, só que obrigatoriamente? A questão que o filme nos traz é que, mesmo na pandemia, as pessoas se sentiam ainda com a possibilidade de decidir sair ou não; os mais conscientes decidindo por ficar, os mais nada-a-ver optando por se arriscar, num “mundo novo lá fora” ainda desconhecido.

No caso de “Nada Além de Flores”, cada um lida com a sensação de prisão de forma individual.. será mesmo? Ainda há o telefone, a janela… e se não houvesse? Será que vai ser suficiente um “estou feliz no meu universo particular” onde “eu não preciso ir lá” que, nas palavras de uma amiga da protagonista, “pelo menos agora você tem desculpa”? Por quanto tempo? Há outras questões: se o confinamento é inevitável, que pelo menos não falte luz, não falte comida, não falta paciência. Mas o mundo real, ainda que “o novo real”, não é perfeito… como o outro, antes, não era e nem poderia ser.

As olheiras crescem na fotografia sombria. Destaque absoluto para o tratamento do som (inevitável lembrar das dificuldades de captação do cinema brasileiro de décadas atrás, melhorou tanto nos últimos anos…): a forma com que ele explora os sons cotidianos desde o início, os diálogos — sejam ao telefone ou “janela a janela” –, o som de uma vela podendo ser companheiro enquanto os pingos em um balde podendo ser aterradores… ou vice-versa, dependendo do dia.

Lá fora, as plantas crescem, um retorno à natureza dominante — não necessariamente as flores citadas no título. Por dentro, a natureza de cada um grita, chora, se desespera. Tanto tempo “consigo mesmo”, é hora de questionamentos — “é o que tem pra hoje”… Mas será que, quando aquela porta finalmente se abrir, terá havido alguma mudança realmente estrutural que mude sua vida?

No fundo, presos ou libertos, nunca “é só férias”: como diz a canção, “você tem fome de quê? E qual será o arame — ou o soco em sua própria psiquê — que vai abrir a fechadura da sua vida?

Tommy Beresford

Assista ao filme:
Pupila Film Festival

~ por Tommy Beresford em outubro, 24 2022.

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