[Resenhas] Praia do Futuro

_praia do futuro cartaz

Duas imagens da adolescência vieram à minha cabeça quando saí do cinema após assistir a “Praia do Futuro”. A primeira foi a do primeiro desfile das Escolas de Samba a que assisti no Sambódromo carioca, em 1987. Me lembrei do Salgueiro daquele ano, com Renato Lage como carnavalesco, que construiu um carnaval esteticamente impecável em cima de um samba que sem dúvida era um dos melhores do ano. Mas o desfile simplesmente “não aconteceu”: o samba se mostrou morno na avenida e a escola, embora plasticamente linda, não emocionou, passou sem graça, sem sal.

A segunda imagem foi a dos biscoitos recheados. Provavelmente por erros do controle de qualidade na época, volta e meia abríamos o pacote do biscoito e nos deparávamos com uma ou mais unidades sem recheio. Sempre era decepcionante, principalmente porque o mais legal era separar do recheio, com os dentes, uma das partes, sem quebrar ambas.

Essas impressões me incomodaram durante toda a exibição do novo filme do talentoso Karim Aïnouz, que nos deu filmes de excelência e premiados como “Madame Satã” e “O Céu de Suely”. Com uma fotografia estupenda, uma montagem competente e excelentes atores, o filme não acontece. Falta conteúdo e, mesmo contando com algumas cenas tocantes por conta das excelentes interpretações dos atores (como a do reencontro entre os irmãos), falta força dramatúrgica, falta conquistar o espectador. Falta recheio.

Até as cenas de sexo, que acabam sendo chamariz para boa parte do público, se diluem na falta de história mais interessante para contar. Vale ressaltar que o filme não trata de homossexualidade, apesar da relação dos protagonistas, e o diretor optou acertadamente por mostrar a sexualidade de ambos de forma bastante natural, sem cair em estereótipos ou apelações, sem explorar os preconceitos inerentes. São apenas dois homens que se apaixonam e se desejam, não necessariamente nesta ordem, como também seria se fosse um casal heterossexual — mas com o detalhe de que, neste caso, acredito que a história perderia ainda mais o pouco vigor que tem…

A produção é extremamente competente, os enquadramentos são super bem escolhidos, a luz está sempre perfeita, a trilha sonora é interessante… mas falta aquele poder de “enlace” entre a história e quem a está assistindo. Se a intenção era abordar abandono e fuga, as questões (a)parecem “apagadas”: não há espera por desfecho, não há expectativa, não há “torcida” por qualquer situação (ou personagem) que pudesse acontecer em “Praia do Futuro”. O elenco é pequeno e excelente: destaque para o cada vez melhor Wagner Moura, mas impossível não citar Jesuíta Barbosa, brilhante.

Nem sempre um filme belo é um filme excelente. E “Praia do Futuro” é um filme muito belo, mas não consegue conquistar o espectador. Se era para ser um “drama poético”, a poesia desta vez não funciona, não emociona. Mas fica a certeza de que Karim Aïnouz pode mais. Muito mais.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em maio, 18 2014.

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