[Resenhas] Bingo – O Rei das Manhãs

Bingo

Mesmo com a explicação de que seria uma exigência americana, assistir a “Bingo – O Rei das Manhãs” nos dá vontade de acreditar que a antiga TVS (muito antes do SBT) proibia que a identidade do Bozo fosse revelada não para não quebrar a magia do personagem, mas para que Arlindo Barreto, ex-ator de pornochanchadas, não fosse descoberto. Sem dúvida, Barreto foi o Bozo mais importante, ainda que não tenha sido o primeiro como sugere o filme (houve um outro, Wanderley Tribeck, mais conhecido como Wandeko Pipoka, que protagonizou o personagem de 1980 até 1982). O fato é que muitos atores viveram o palhaço de cabelos armados, como Luís Ricardo, Paulo Seyssel, Décio Roberto, Charles Myara (o mais marcante na versão carioca), Nani Souza, entre outros. Bozo comandava as manhãs e logo chegou a primeiro lugar no IBOPE, feito que parecia impossível em tempos de hegemonia da (já Rede) Globo. O sucesso foi tão grande que Bozo ganhou outro programa à tarde, o também inesquecível “TV Pow”, que consagrava o modelo de interação com o espectador via telefone (segundo o filme, ideia do próprio “personagem”)…

De todos os atores que o interpretaram, foi Arlindo Barreto sem dúvida o mais carismático, mais marcante e mais polêmico, e é o filho da atriz Márcia de Windsor o tema do longa de Daniel Rezende, que antes fora montador de filmes como “Cidade de Deus” (2002), “Ensaio Sobre a Cegueira (2008)”, “A Árvore da Vida” (2011) e “Robocop” (2014), além dos dois “Tropa de Elite”, entre outros. O filme é excelente e, no momento em que escrevia essa resenha, recebemos a notícia de que a obra será a pré-candidata brasileira a dois prêmios de grande importância: o Oscar 2017/2018 e o Goya. Talvez não seja a melhor opção (o excelente “Como Nossos Pais” entrou em cartaz quase na mesma época e também era forte candidato), mas ainda assim é uma escolha de qualidade. Evidentemente, é desnecessário avisar aos incautos que não é um filme infantil: a vida de Barreto não foi nada leve, e o filme é excelente, mas não economiza no sexo, álcool, drogas e palavrões.

Arlindo Barreto

Arlindo Barreto

O longa tem grandes méritos técnicos: bem dirigido, montado, boa fotografia, ótima trilha sonora. Mas o próprio Arlindo Barreto, hoje pastor, explicou em entrevista que algumas passagens apresentadas no filme não são totalmente verdadeiras: o roteiro de Luiz Bolognesi simplifica alguns fatos e omite alguns detalhes que as crianças da época não têm como esquecer. Não são citados explicitamente, por exemplo, Papai Papudo (na época interpretado por Gibe), Salci Fufu (Pedro de Lara), dois do principal trio de apoio ao palhaço: Vovó Mafalda (Valentino Guzzo) existe no filme mas sem qualquer destaque (os três atores já nos deixaram).

Uma das duas maiores forças do filme é justamente ter se tornado um grande filme de ficção baseado em uma história real: o espectador não sente necessidade em saber se há total veracidade na história, não somente pela barra pesada que a vida de Barreto por si só já era, mas também pela aura de mistério que sempre cercou o personagem.

O Bozo da TVS

O Bozo da TVS

O outro alicerce poderoso é o elenco. Emanuelle Araújo aparece fatal representando Gretchen e, mais ainda, exemplificando ao público da época o mais que inusitado universo de Bozo, que com a cantora presenteava o programa infantil do horário das manhãs com uma sensualidade obviamente muito mais atraente aos adultos. Márcia de Windsor é representada com dignidade pela sempre precisa Ana Lucia Torre. Leandra Leal está incrível num papel que na verdade seria a união de vários, e o filho de Bingo é o ótimo Cauã Martins. Domingos Montagner (e este mesmo 15.09.2017 marca um ano do acidente trágico que levou o grande ator) faz uma participação pequena mais emocionante, e havia participado desde a construção do roteiro do filme.

O papel principal havia sido escrito para Wagner Moura, que por problemas de agenda acabou não filmando mas indicou Vladimir. Nada mais certeiro. Vladimir Brichta brilha intensamente. O próprio ator contou posteriormente que, por não ser uma cinebiografia, não se debruçou demasiadamente sobre a figura real de Barreto para compor o personagem e só o encontrou pessoalmente na quinta semana de filmagens. Num figurino diferente do original mas numa composição bastante fiel aos maneirismos do palhaço versão TVS, Vladimir torna o personagem “sacana”, e esta é uma outra qualidade enorme do filme: mostrar uma década que, embora mais kitsch e exagerada que as posteriores, era muito mais efervescente, que não tinha vergonha da própria cafonice e que misturava graça, ternura e doses de escalafobetice aos que na época não dispunham da enormidade de opções que a internet, como maior exemplo, hoje oferece. Não deixem de assistir.

Tommy Beresford

cinemagia.wordpress.com

~ por Tommy Beresford em setembro, 15 2017.

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