[Resenhas] Amor

amor cartaz

Há quem ame e há quem odeie “Amor”. Houve quem saiu do cinema antes do final, há quem se emocione, chore copiosamente, fique até com raiva. Mas é impossível sair imune a esta triste mas tocante produção. Me lembrei, sabe-se lá porquê, de uma linda canção de duas de minhas compositoras favoritas, Lucina e Zélia Duncan, de um dos trabalhos de Zélia que mais adoro, o CD de 2006 “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”: “Eu Não Sou Eu” para mim define, desde o título, a relação, de amor daquele casal. Embora o mote da canção com certeza seja outro, “Eu sou seu corpo mais forte/Seu alvo atingido” me remete diretamente à relação que faz com que o personagem de Jean-Louis Trintignant seja amado e amor, atingido e cuidador misturando-se em todos os papéis não somente porque a esposa está doente, mas pelo sentimento em si, que não é novo mas se renova e é posto à prova com a nova situação imposta. E ao mesmo tempo dói, “Seu improvável/Seu conforto e seu pesadelo”, e tanto, e tanto, e tanto mais…

Sim, sei que estou misturando alhos com bugalhos, mas a sensação com que sai de “Amor” é mesmo mista e confusa. Conhecido por “filmes que incomodam”, para dizer o mínimo (o mais popular no Brasil certamente é “A Fita Branca”), Michael Haneke foi considerado “convencional/tradicional demais” por alguns críticos com esta nova obra. Baseado apenas em um mesmo ambiente, Haneke porém não se limita, e leva para (ou desperta n)o coração do espectador inúmeros questionamentos — acima e abaixo de sua árvore genealógica, presente e futuro.

Emanuelle Riva

Emanuelle Riva

Emanuelle Riva, conhecida por “Hiroshima Meu Amor” (em longínquos 1959), não é a principal candidata ao Oscar. Seus 85 anos poderiam lhe dar uma estatueta ? Para alguns críticos sim, ainda mais por uma Academia que volta e meia era acusada de premiar “por piedade” (bobagem enorme) atores em final de carreira, como Henry Fonda (vencedor em 1982 por “Num Lago Dourado”, batendo Warren Beatty, Burt Lancaster, Dudley Moore e Paul Newman) e Geraldine Page (vencedora por “O Regresso para Bountiful”, justamente num dos anos de ouro do Oscar em interpretações femininas: em 1986, Geraldine venceu Anne Bancroft, Whoopi Goldberg, Jessica Lange e Meryl Streep num Oscar que ainda deixou de fora Cher e Norma Alejandro em grandes papéis). Em 2013 ela tem sua primeira indicação, a mais idosa concorrendo com a mais nova da história da categoria de Melhor Atriz, Quvenzhané Wallis (por “Indomável Sonhadora”). Mas são duas outras as que dividem o favoritismo, Jessica Chastain e Jennifer Lawrence, que dividiram quase todos os prêmios da temporada entre si. Ainda assim Emanuelle foi a grande vencedora do Boston Society of Film Critics, European Film Awards, atriz do ano pelo London Critics Circle Film Awards e Los Angeles Film Critics Association Awards. Seu desempenho é excelente, comovente, impossível não se emocionar.

Jean-Louis Trintignant

Jean-Louis Trintignant

O trabalho de Jean-Louis Trintignant é excepcional e, apesar de esquecido no Oscar, foi premiado como Melhor Ator no último European Film Awards. Das cinco indicações ao prêmio da Academia, a maior barbada é a categoria de Melhor Filme Estrangeiro, já que ao excelente “Intocáveis” não foi permitido estar no páreo. Globo de Ouro, a Palma de Ouro no Festival de Cannes, Critics’ Choice Movie Awards e National Board of Review foram apenas alguns dos inúmeros prêmios que “Amor” levou.

Michael Haneke foi “acusado” de ter tirado a indicação de Ben Affleck (ou de Tarantino) no Oscar, e pode ser a grande zebra na categoria de Melhor Diretor (embora eu não acredite). Como diretor, Haneke é brilhante desde a abertura, que nos poupa de muitos minutos da vida pregressa do casal (não, nada de moleza para o espectador) e nos indica diretamente o que vai acontecer, passando pela pequena participação da sempre excelente Isabelle Huppert e em especial a direção do casal principal, Georges e Anne. O filme concorre ainda a Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.

Não espere um filme piegas: é um belo filme, mas duro, triste demais. Seja forte, leve seu lenço e confira nos cinemas. Mas seja forte realmente: talvez você saia odiando ao final, mas acho que você deve assistir, para manter seu coração aberto aos questionamentos da vida.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em fevereiro, 01 2013.

3 Respostas to “[Resenhas] Amor”

  1. O filme choca porque a realidade está toda alí, exposta. Quem pensa que irá assistir a um filme de amor, com cenas românticas, pode tirar seu cavalinho da chuva. Fiquei anestesiado e a minha ficha só caiu quando já estava fora do cinama.

  2. Vê só, Tommy, o filme é triste. Quando começou eu pensei logo, nao vou agüentar pois tive o meu pai e minha mãe acamados assIm, minha mãe por seis anos. Confesso que foi difícil ir até o final, mas fui porque pensei, vou entender a mensagem do afeto que o diretor desejou passar. Ele passou a mensagem do afeto sim, verdadeira. Dedicação daquele que ama. Acho que fiquei meio gelada. Aliás depois dessas que passei, acho que meu coração endureceu para muita coisa. Não acho que seja um filme para chorar. É anestesiante.

  3. Pois eu dormi! Sim, este filme foi dividido em TRÊS CAPÍTULOS: no primeiro dia, dormi, de puro tédio. No segundo, ainda o dividi em duas partes para não ter o risco de perdê-lo de vez… Humpf!

    Fiquei meio “irada” sim. São duas horas de tédio, enorme tédio… E não sou das pessoas mais insensíveis. Sou sensível sim, mas percorrer um drama profundo e tristerérrimo SEM MÚSICA, é o fim…

    Apesar, acho que a indicado ao Oscar de Haneke foi devida: ele dirige um filme chato com cenas bacanas (a dos quadros da casa me interessou…). E mais que Oscar para Trintignant: além da esposa, acho que ele “carrega” este filme nas costas…

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