[Resenhas] A Suprema Felicidade

O novo filme da Arnaldo Jabor emociona em alguns momentos, tem algumas atuações marcantes, é agradável de ver. À exceção, porém, das cenas envolvendo o personagem de Marco Nanini, é difícil encontrar “A Suprema Felicidade” nem nos demais personagens nem no espectador durante ou depois da exibição. Ok, esta resenha pode até começar meio tosca, mas depois do texto do diretor no Estadão esta semana — leia aqui — dá até medo de escrever sobre o filme… Ainda bem que sou um mero espectador blogueiro que confessa começar uma resenha de forma meio tosca, e não um crítico profissional dos grandes jornais lidos pelo diretor… A propósito, acredito que Jabor não esteja acostumado a ler as dezenas e dezenas de resenhas de filmes que são publicadas na internet brasileira todos os dias. Sem me deixar influenciar, aproveitei e consultei várias agora, depois que assisti ao filme, e vi que muitas são desfavoráveis ao filme.

Seja como for, dizer desta vez que fui como sempre sem expectativas para o cinema não seria verdade. Queria muito assistir a uma grande obra deste diretor que marcou minha memória cinematográfica com filmes como “Eu Sei Que Vou Te Amar” e “Toda Nudez Será Castigada”. Mas não acho que tenha sido o caso desta vez. A direção é boa, mas o roteiro é confuso. Os diálogos adjacentes, justamente os que tentam situar melhor as cenas no contexto da época em questão, soam falsos, em especial os que falam sobre futebol. Muito estranho também o pouco cuidado com a adequação das locações da cidade, como a iluminação da Praia de Copacabana, a fachada do Eldorado e o uso em várias cenas de clichês e estereótipos que não acrescentam muito à ambientação. Ao contrário: em alguns momentos, o espectador fica confuso sobre qual é a época que o filme está mostrando naquele momento. As pitadas fellinianas e nelsonrodriguianas, conscientes ou não, também não funcionam, e diversas sequências dão a sensação de que o diretor resolveu colocar no filme tudo o que acumulou dentro de si nestes mais de 20 anos sem filmar um longa. Mais estranheza: ok, a trilha é de Cristóvão Bastos, mas precisa tocar a belíssima mas inadequada “Todo o Sentimento” ?

Há, sim, cenas maravilhosas, graças principalmente ao talento de atores como o supracitado Marco Nanini, e pontas deliciosas, como as de Camila Amado, Emiliano Queiroz, Jorge Loredo e Ary Fontoura. Mas há muitas histórias que não rendem, em especial a de Maria Flor (ótima, é bom frisar), que está arrasando em cenas que… não significam nada na trama. O personagem de João Miguel, grande ator que brilhou em filmes como “Estômago”, fica apenas repetindo piadas de duplo sentido… para quê ? Elke Maravilha (que, poucos acreditam, é ótima atriz) é outra desperdiçada e os adolescentes não rendem como deveriam: parece ter faltado uma preparadora de (jovens) atores. A grande exceção: o talentoso César Cardadeiro, excelente num papel difícil de uma história que (in)justamente não foi bem aproveitada.

Outra grande atuação e ótima surpresa do filme é Tammy Di Calafiori. Conhecida apenas por papéis insípidos em novelas como “Passione”, “Ciranda de Pedra” e “Alma Gêmea”, a jovem atriz de 21 anos mostra talento e dá novo vigor à segunda metade de um filme que começava a se arrastar.

O principal problema é que o filme carece de protagonistas verdadeiros. O excelente Dan Stulbach está surpreendentemente caricato, Mariana Lima não sustenta sua dona de casa e esposa frustrada e os meninos que interpretam Paulo aos 8 e 13 anos são fracos. Assim, Paulo nunca se torna de fato o que deveria ser: o personagem principal da história, nem mesmo quando, aos 19, é interpretado por Jayme Matarazzo, que se esforça para dar densidade àquele que não se transforma nunca no eixo da narrativa. Por isso, mais uma vez é necessário ressaltar a excelência do trabalho de um ator impressionante que brilha em qualquer papel: Marco Nanini dá brilho de protagonista a um papel coadjuvante. Talvez se o filme fosse focado em sua história, teria outra dimensão. Nanini merece receber todos os prêmios possíveis por este papel — e por toda a sua carreira. Curiosamente, a atuação maravilhosa, excepcional mesmo, de Nanini cria um desequilíbrio no filme: a atenção e o prazer do espectador são aguçados quando ele está em cena, e o desinteresse retorna quando ele não está.

Seja como for, é preciso lembrar que o cinema brasileiro não pode ficar apenas popular por (excelentes) filmes que remetam à violência ou à pobreza, como o recente “Tropa de Elite 2” e o internacionalmente incensado “Cidade de Deus”. É preciso também filmes delicados, que retratem bons momentos do cotidiano, a tal procurada suprema felicidade, as dificuldades dos relacionamentos humanos. Bom saber (e assistir) que Arnaldo Jabor volta à ativa colaborando, ainda que sem completo sucesso, neste sentido.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em novembro, 11 2010.

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