[Resenhas] Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei

simonal_cartazÉ difícil falar sobre “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei”, ao qual assisti ontem com amigos musicais queridos, sem cair nas questões políticas que transformaram, sem volta, a vida e a carreira de Wilson Simonal. Mas tentarei, até porque o filme de Cláudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer não tenta (e é preciso assistir ao filme para comprovar isso) levantar as bandeiras do “precisamos perdoar Simonal pelo que ele fez ou pelo que ele não fez” ou “precisamos provar que a história não foi bem assim” — embora, convenhamos, parte da propaganda do filme tenha navegado erroneamente entre essas duas “necessidades” (e acho que nem deu certo como divulgação, já que o filme até agora não deu nem 100 mil espectadores, infelizmente). E também porque não me sinto capaz, até pela idade (embora eu não seja tão novo assim), de tecer considerações tão eloquentemente embasadas quanto as dos que certamente se colocarão ou como defensores, ou como acusadores ou simplesmente como testemunhas daqueles tempos tão difíceis.

O ótimo filme, bem produzido, bem editado e com ótimo som, se empenha em resgatar diversos períodos da vida de Simonal: fala (pouco) da infância pobre, fala (muito, mas nunca suficiente) da ascenção meteórica e do auge popular, do julgamento midiático das acusações que sofreu e do ostracismo silencioso que se seguiu. Mais que tudo isso, mostra o talento de Simonal, por meio de imagens impressionantes, que mexem com o público acima dos 45 que o conheceu como fenômeno musical e também mexe com os que só agora ouvem falar do astro, que morreu em 2000 esquecido e alcoólatra. Cenas antológicas do duo com Sarah Vaughn e o solo poderoso de Sá Marina são entremeadas de registros históricos de participações na TV, além do grande show de abertura no Maracanazinho para um show de Sérgio Mendes, um grande marco.

Em meio a depoimentos de nomes como Miéle, Pelé, Jaguar, Zirado, Barbara Heliodora, Ricardo Cravo Albin, Nelson Motta, Sérgio Cabrail, Paulo Moura, Toni Tornado, entre muitos, outros, senti a falta de depoimentos do público em geral, daqueles que anonimamente cantaram, em coros de milhares de vozes, as canções que Simonal comandava, como um dos intérpretes mais carismáticos que já surgiram no país em todos, os tempos, em shows para mais de 30 mil pessoas, e tambpem do depoimento daqueles que, politizados ou não, assistiram às consequências de sua prisão e que nunca foram entrevistados este tempo todo: uma massa enorme, eu sei, mas que poderia ter sido ouvida através de alguns depoimentos bem colhidos.

Senti também falta de entrevistas com grandes nomes da música brasileira que estiveram em evidência ou surgiam quando Simonal era um astro de âmbito nacional e internacional, que com ele se relacionaram nos tempos de ouro do artista e que se posicionaram, ainda que com o silêncio da reprovação, quando as acusações ganharam a mídia. Vale lembrar que muitos dos astros que hoje são nomes respeitados e que fazem parte da história musical da MPB, na qual Simonal é ignorado, eram concorrentes do festival da canção no qual Simonal, já grande astro com praticamente a mesma faixa etária, era o grande convidado especial, que levantava o público, que fazia as pessoas cantarem e dançarem. Senti igualmente falta dos depoimentos dos delatados que sobreviveram e seus descendentes, de cuja existência nomes como Chico Anísio declara duvidar. O filme poderia ter o dobro do tamanho, portanto, seja pela arte, seja pela vida.

Mas há, felizmente e como pontos altos do filme, as falas comovidas e comoventes de seus filhos Max de Castro e Simoninha, e da segunda esposa, ela que acompanhou a fase do ostracismo, depoimentos do próprio astro — inclusive nos poucos momentos em que conseguiu espaço na mídia para fala. E há o depoimento emocionado do contador que fora torturado quase 35 anos atrás, sem o qual o filme se tornaria incompleto e até inconsequente.

Há, sim, e é necessária, uma reverência merecida, com cenas que não podem ser apagadas, ao talento musical deste que, depois da condenação pública, da prisão e da crucificação, não recebeu qualquer anistia — e não estou aqui questionando merecimento nem piedade –, e que foi um dos carregou nas costas o linchamento público que, se ele merecia, certamente centenas de outros mereciam ao menos tanto quanto. Simonal era negro, veio da miséria, tinha um puta talento, tinha fama e reconhecimento público, era tão metido quanto talentoso, tão besta quanto ingênuo, falava o que queria, usufruia do que desejava já que passara a ter condições para isso, e foi execrado, trancafiado ao limbo e apagado da história não somente pela acusação de delação e tortura, mas sem dúvida por tudo isso junto.

No fundo, Simonal morreu na metade da década de 70, mas vagou fantasmagoricamente por quase 25 anos, e seu corpo, com cirrose, mágoa e esquecimento, só foi sepultado em 2000. Me admiro, ainda que não me surpreenda, em ver(mos) tantos nomes tão execráveis ou radicais daquele período — mas que não eram astros musicais populares — sendo hoje amplamente votados nas eleições e, como mandatários do povo, fazendo e acontecendo nas câmaras do poder de todos os âmbitos pelo país. Talvez os políticos profissionais tenham tido “mais sorte”: Simonal não sobreviveu. Quem sabe agora, com o filme, ele seja ressucitado, resgatado, como artista.

Site oficial do filme:

simonal_cena

~ por Tommy Beresford em junho, 19 2009.

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