[Resenhas] A Família Bélier

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Ter voz sem ter voz. Não ter voz embora a tenha de sobra. Pode parecer estranho começar a resenha de “A Família Bélier” assim, mas esta é a primeira grande impressão que tive deste delicioso filme, principalmente sobre a primeira metade do longa de Eric Lartigau.

Talvez por eu ser cantor, escritor, blogueiro e cronista do cotidiano nas redes sociais da vida, a questão da mudez de três dos personagens principais tenha me atingido ainda mais que a própria surdez geradora. Para nós, os considerados “normais” (muitas aspas nisso), não conseguirmos nos expressar da forma mais adequada já é uma tarefa espinhosa, ainda mais nos dias de hoje onde a comunicação se difere muito do simples conversar, discursar e redigir, e que uma frase mal colocada pode gerar conflitos (que duram semanas) ou quebras de relacionamentos. Quantas vezes somos mal interpretados por um post ou comentário na internet por simplesmente termos abreviado uma sentença para caber num pequeno espaço ou para agilizar a conversa…

O pai e mãe do filme, porém, mesmo em meio à dificuldade verbal e auditiva, são extremamente eloquentes. Tentam a todo custo se fazer entender, mas para isso acabam sobrecarregando a filha Paula, que domina a linguagem de sinais e, como toda adolescente, quer se sentir cada vez mais livre para não somente descobrir o mundo mas principalmente expressar a si mesma, coisa que pouco faz em meio a “tantas libras” dos que a cercam. O primeiro amor, as crises escolares, tudo parece ficar em segundo plano em meio às responsabilidades que assume junto às deficiências da família (o irmão também é surdo-mudo) e à propriedade em que vivem, cheia de afazeres com plantação e criação de animais.

No fundo, porém, a questão auditiva dos pais acaba sendo menos importante para Paula do que desejar que todos consigam se expressar por conta própria, inclusive ela mesma. Gritar — e ser ouvida — acaba sendo uma meta quase impossível para sua adolescência fervilhante, mas é aí que, repentinamente, no canto (não o da parede dos incompreendidos, mas o que expressa sua voz interior) que a ainda menina finalmente se encontra. A cena da primeira audição é tocante, e o filme cresce a cada novo mo(vi)mento musical de Paula, vivida com enorme talento por Louane Emera, que veio do The Voice francês de 2012 e agora estreia no cinema. Autêntica, Louane brilha criando uma Paula carismática mesmo na vibe aparentemente sem graça com que a personagem nos é apresentada: uma adolescente comum, quase chata, com roupas acima do número e sonhos acima de sua realidade interiorana. Paula vive como ponte, mas há um rio inteiro, caudaloso, correndo sem rumo definido dentro de seu coração acelerado, embora pulsando num invólucro adolescente de aparência comum e resignada.

Para muitos, poderá até parecer um “filme teen” francês, aliás coisa rara de ser exibida por estas bandas. Para outros, pode ser uma comédia leve, no máximo uma “dramédia”, a abominável expressão utilizada atualmente para recentes e bem sucedidos filmes como “Eu, Mamãe e Os Meninos” e “Intocáveis“. Além disso, retratar deficiência no cinema pode muitas vezes gerar filmes cheios de clichês e caricaturas. Mas “A Família Bélier” é na verdade um drama muito humano e sem quaisquer excessos, que não se mostra pesado por conta das escolhas tanto do roteiro, sempre direcionado a um humor leve, quanto do diretor, que conta com um elenco incrível. Destaque para François Damiens (de “Tango Livre”), que interpreta Rodolphe, o pai de Paula, mas Karin Viard (de “O Verão de Skylab”) e Luca Gelberg, respectivamente a mãe Gigi e o irmão Quentin, também estão ótimos. Eric Elmosnino (César 2010/2011 de melhor ator por “Gainsbourg”) interpreta o regente.

As músicas de Michel Sardou (especialmente “Je Vole”) enriquecem as cenas, mas há algo de atemporal em “A Família Bélier”, que a fotografia de Romain Winding inteligentemente aponta. Apesar de um ou outro aparato musical de Paula, não há muito referencial para indicar que os personagens são desta ou daquele época, justamente porque isso não é necessário na trama e permite a identificação de um público de todas as idades. Essa atemporalidade também deixa bastante espaço para as questões da cabeça em explosão de uma adolescente que ainda nem menstruou mas que no fundo já tem muito de adulta em atos e necessidades. No fundo, seus pais não se decepcionam com suas conquistas e desejos, mas se sentem incomodados, para dizer o mínimo, por não poderem acompanhar a contento a evolução, cheia de expressão e voz, da filha menina que vira mulher. E isso torna o final do filme inesquecível.

Na saída do cinema, me lembrei um pouco do saudoso “Billy Elliot”, embora sejam filmes bem diferentes. A última meia hora do filme é muito emocionante, uma bela união das conquistas que a música traz com a relação entre pais e filha… Chorei baldes e baldes em várias cenas, mas é impossível não destacar o momento em que a filha atende a um pedido do pai, que a ‘ouve’ de uma forma muito singular… Relembrando, choro novamente ao escrever esse parágrafo, até por minha relação de pai com minha filha, tão especial e tão incrível quanto este pequeno universo de “A Família Bélier”. Recomendo imensamente, quero ver de novo em muito breve.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em janeiro, 23 2015.

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