[Resenhas] O Solista

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De cara é preciso afirmar que “O Solista” traz duas excelentes perfomances de Jamie Foxx e Robert Downey Jr, dignas de indicações para os principais prêmios do ano. Mas a direção ajuda: sem cair na pieguice (ok, vá lá, há uma citação aqui ou ali), o diretor Joe Wright mostra um pouco (eu disse um pouco) das mazelas da sociedade americana muitas vezes desconhecidas do público em geral, camufladas pelo “American Way of Life” que, em pleno século 21, ainda engana muita gente.

Boa pedida para quem gosta de música (embora, entre os filmes ainda em cartaz, eu recomende antes e em especial “A Partida“) e baseado em uma história real que virou livro, no fundo o filme não é centrado no músico Nathaniel, mas sim na incompreensão humana, no dia-a-dia de uma “mente perturbada” mas nem por isso desmerecedora do que o mundo preconceituoso e sem perspectivas insiste em negar para os que são “diferentes” (os rótulos, ah, os rótulos que destróem sonhos e possibilidades…).

Como protagonista, Foxx está mais uma vez admirável, e o supostamente coadjuvante Downey Jr mostra porque é um dos grandes atores do cinema americano, mesmo que isto seja pouco reconhecido e em meio a seus problemas pessoais que, felizmente, parecem agora superados. Observe que a interpretação de Donwey Jr, sustentada por um bom roteiro, eleva seu Steve Lopez ao patamar de protagonista tanto quanto Nathaniel: os personagens, tão diferentes, se misturam e se confundem na imensa solidão que é ao mesmo tempo causa e consequência da obsessão com que cada um leva sua vida.

Vale a pena parar para pensar, ao final do filme, sobre o por quê das atividades que você escolhe (ou é escolhido) para executar durante sua vida, que importância você dá a elas, com que dedicação as executa e em quais consequências — não necessariamente de “lucros para o bolso” — elas resultam. O filme também nos relembra que é preciso estar atento aos detalhes da vida para não perdermos momentos especiais que acontecem a todo momento e (já não mais) percebemos. Ainda assim, temo que alguns assistam ao filme e não sejam (mais) capazes de enxergar “além dos fatos”. Falta cada vez mais ao mundo um certo “comprometimento” das pessoas: umas com as outras e com os grandes e pequenos instantes únicos da vida.

Além da trilha de Dario Marianelli, vale o destaque também para a (pequena) participação de Catherine Keener e de Lisa Gay Hamilton (Jennifer, irmã de Nathaniel), sem falar, claro, em Justin Martin, ótimo como o Nathaniel na adolescência. Gosto também da reflexão que pode ser feita com relação à liberdade que o jornalista ainda deveria ter de escolher pautas que não fossem “comerciais” e, voltando a citar Keener, a cena da premiação a seu ex-marido já valeria o filme se não houvesse todo o resto.

Em (poucos) momentos arrastado e com um pezinho na melancolia, se não chega a ser um filme inesquecível, “O Solista” certamente emociona, faz pensar e portanto vale o ingresso.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em novembro, 16 2009.

4 Respostas to “[Resenhas] O Solista”

  1. Não é um filme que irá agradar quem procura diversão. Achei até um pouco arrastado demais. Tirando as boas atuações dos atores principais, fica a impressão que algo não foi bem conduzido. Não creio que seja candidato ao Oscar.

  2. achei +/- isso, o filme é bom mas é meuio repetido, a quela angustia, porque o Nathaniel não obedece, certamente entendo seus problemas, mas o diretor podia mudar um pouco, no final do filme ele podia relembrar de sua vida, mudar.

  3. Excelente resenha!!!!!

    É exatamente um filme para reflexão e não para diversão!
    Na minha opinião é um dos filmes mais belos acerca da problemática dos transtornos mentais exatamente porque retrata o posicionamento do outro diante da pessoa adoecida: a sua impotência e a forma como lida oom a impossibilidade de “cura”, a aceitação do outro, o respeito, os estigmas, etc.
    Aliás, destacaria a questão da medicação e da busca pelo diagnóstico trabalhados pela primeira vez (que eu tenha conhecimento) de forma não centrada no saber psiquiátrico clássico biologicista(os filmes acerca desse tema sempre apresentam a clássica cena da internação, o hospital psiquiátrico).

    Enfim, é forte e sensível ao mesmo tempo, e ilustra com maestria
    (e música!) a exclusão social que acomente as pessoas em situações de vulnerabilidades (psiquicas ou sociais).

    …Enquanto a distância entre são e doente não se encurtar em seu
    reconhecimento recíproco, enquanto a barreira de prevenções, de
    preconceitos que os separa não cair, a doença mental
    continuará a apresentar-se com a face do excluído…
    Franco Basaglia

  4. Bela resenha amigo Tommy (comentários também legais!). Pra mim ficam algumas coisas como as fotografias quase poéticas de Los Angeles vista do alto, a atuação do camaleônico Jamie Foxx (eita menino!), e também – um pouco menos – de Robert Downey (mas que, de fato, pensei que o protagonista fosse ele, pensei).

    Importantíssimo rever nossas ideias sobre doença mental. A não compreensão do mundo do outro, por mais “maluco” e diferente que seja do nosso, é fundamental. Felizmente parece que, ao final, Steve Lopez percebe que basta conviver com a diferença, não tentar transformá-la.

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