[Resenhas] Enrolados

Quando eu nasci, mesmo que eu tivesse consciência dos acontecimentos da época, ainda não teria plena noção de que os Estúdios Disney já estavam vivendo uma fase de baixa (com poucas boas exceções, como “Robin Hood”, de 1973) da qual só se recuperaria duas décadas depois. Foi com “A Pequena Sereia” que a geração dos pequeninos do final dos anos 80 pôde entender o que era de fato a tão propalada “magia Disney” que encantara tantas gerações com filmes como “Branca de Neve e os Sete Anões” (de longínquos 1937, mas com todo o encanto e qualidade preservados), “Fantasia”, “Pinoquio”, “Cinderela”, “A Bela Adormecida” e mais pelo menos numa dúzia deles.

Ariel foi apenas a entrada: a tríade de ouro veio logo em seguida, na primeira metade dos anos 90, com “A Bela e a Fera”, “Aladdin” e “O Rei Leão”, três clássicos, já com as primeiras mas ainda tímidas interferências mais que bem-vindas da computação gráfica. Seja sozinha ou em parceria com a Pixar, outros grandes filmes da Disney vieram, seja em animação tradicional, seja totalmente computadorizada.

Como o IMDB sempre foi minha consulta quase diária, dei de cara, há pelo menos 6 anos atrás, com a ficha de “Rapunzel” ainda em pré-produção (e inicialmente como animação tradicional), e de cara percebi que um outro clássico surgiria. O tempo passou, a tecnologia avançou, as ideias mudaram e o 3D surgiu com força. Os planos para o filme foram mudando, muita coisa foi refeita, o roteiro foi alterado e surgiu finalmente “Enrolados“, sucesso absoluto nas férias escolares brasileiras: o filme — que vem com a propaganda e a importância de ser a produção de número 50 da Disney — tem potencial para alcançar uma bilheteria bastante expressiva por aqui.

Minha curiosidade era enorme, tanto que nem reclamei muito de ter que assistir o filme dublado porque todas as cópias da cidade eram dubladas: adoro as dublagens brasileiras, mas gosto do direito de escolha. Pois “Enrolados” poderia com toda propriedade se chamar de fato “Rapunzel” e entrar no rol dos grandes filmes de princesas, longe porém de ter aquela alcunha preconceituosa e desnecessária de “filme para meninas”: “Enrolados” é para todos. Muito mais que isso: “Enrolados” é um filme inesquecível, com todas as modernidades do século 21 — diálogos, tecnologia, humor — sem perder a doçura e a competência de se contar uma ótima história.

O roteiro é enxuto e seduz crianças e adultos, a animação (tradicional, com efeitos em 3D) é belíssima, a trilha sonora (Alan Menken, se superando) é perfeita, mesmo as canções mais açucaradas são excelentes… dá vontade de ver mais de uma vez. A dublagem brasileira é excelente, incluindo aí Luciano Huck, positivamente surpreendente (Huck dubla as falas de Flynn, mas não as canções). Muita gente não gostou, claro, pois não conseguiram se desvencilhar da imagem do apresentador por conta de sua voz e carisma marcantes. Aliás, são curiosas as referências ao nariz do personagem, mas certamente pura coincidência…

É preciso, a propósito, destacar aqueles, do nosso excepcional time de dubladores profissionais, que nunca aparecem nas matérias da imprensa: Sylvia Salustti (na versão original, Rapunzel é feita por Mandy Moore) e… qual será o nome do ator que faz as canções que Luciano Huck não seria mesmo capaz de cantar ? Difícil encontrar o nome na imprensa (no original Flynn é interpretado integralmente por Zachary Levi), tentei e não achei, mas fica a menção. Todos são excelentes — vale citar também Cláudio Albuquerque, Jorge Vasconcellos, Carlos Gesteira, Renato Rabello, Mauro Ramos, Garcia Junior, os nomes que encontrei na internet.

Mas é Mamãe Gothel, a personagem malvada da vez, quem rouba a cena.

Gothel é uma vilã, mas a vilã menos histriônica (não há grandes efeitos especiais explosivos e sombriamente fumacentos à sua volta) e talvez a mais complexa de todos os desenhos Disney, por mais simples que pareça. Apesar de sua vilania, ela é… mãe, e exerce este circuito de afeto em meio a suas necessidades pessoais e ao passado sombrio. Uma mãe que diz “eu te amo” o tempo todo, que dá conselhos para a filha… felizmente, o desenho deixa claro para o público menor que na verdade ela não é “a mãe”, e portanto há pouco de verdade ali (ainda que, de alguma forma, Gothel realmente goste de Rapunzel)…

Portanto, eis um diferencial: nenhuma vilã Disney foi mais humana que Gothel, e o brilho malévolo da personagem na versão brasileira é ainda mais intenso com a dublagem de Gottsha. Gottsha merecia um prêmio especial por este trabalho, mais um no currículo desta excelente e infelizmente pouco reconhecida atriz e cantora de primeira linha.

Imperdível. Corra para os cinemas, com ou sem crianças. “Enrolados”, para mim, já é um clássico. Sim, posso estar exagerando, ainda no calor (ou do friozinho, se preferirem) da saída da sala escura. Mas cenas como a das lanternas são para não se esquecer.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em janeiro, 13 2011.

3 Respostas to “[Resenhas] Enrolados”

  1. Esse filme é lindo eu sou apaixonado por ele, o nome do dublador do Flynn nas canções se chama Raphael Rossatto.

  2. é mais um filme para ocupar as nossas prateleiras em casa junto a coleção de clássicos da disney, para assistir de domingo com a familia toda, várias e várias vezes, até ficarmos velhinos, velhinhos…

  3. pra mim a Gothel amava muito mais os cabelos da Rapunzel do que a própria Rapunzel. pelo menos foi essa a impressão que o filme me passou.

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