[Resenhas] Valsa Com Bashir

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Na guerra não há vencedores. Ok, clichê. Mas Hollywood, infelizmente com poucas e boas exceções, sempre tentou revelá-los, valorizá-los, encher a guerra de glamour. Mas não há glamour na guerra. Não importa quem esteja certo ou errado (e quem está ?). Na verdade, não há razão na guerra.

E quando um filme traz à tela mais mortes e desesperança, muitas vezes é rotulado de cruel e sanguinário, de ter “tintas fortes demais”. Na guerra, não há tintas fortes demais. Na guerra, não há razão nem emoção: nada na guerra é justificável.

O roteirista e diretor de “Valsa Com Bashir”, Ari Folman, tinha apenas 19 anos quando participou do conflito que começou (como se já não acontecesse antes) em setembro de 1982, quando o presidente do Líbano, Bashir Gemayel, eleito apenas três semanas antes, foi alvo de atentado na sede de seu partido. A partir daí (e como se já não acontecesse antes), milhares de homens, mulheres e crianças morreram, e nem se pode dizer “homens, mulheres e crianças de todos os lados”, pois em geral quem morre é quem não tem nada a ver diretamente com armas ou facções, ainda que estejam vestindo fardas e carregando armas. São todos humanos, que nasceram nus, despidos das vestes das ideologias, preconceitos, crueldade, razões e irracionalidades.

Folman conseguiu sobreviver à guerra e se transformou num conceituado roteirista da televisão israelense, e como cineasta decidiu voltar ao passado, correndo atrás de depoimentos de ex-combatentes da chamada Guerra do Líbano e concebendo “Valsa com Bashir”, entre documentário e animação, não simplesmente como um grande conjunto de falas emocionadas, mas como uma pequena preciosidade cinematográfica entre as poucas que surgiram num século 21 ainda repleto de conflitos de todo tipo em todo o planeta. E não há esperança que isto venha a mudar.

A memória é parte central na trama: mais do que notícias (ou melhor, versões) registradas em jornais e livros de história, lembrar ou não dos acontecimentos com mais ou menos detalhes não é apenas resultado da razão nem das experiências entranhadas em quem os viveu, mas das marcas que esses acontecimentos deixaram (fisicamente ? neurologicamente ?) nos cérebros e no futuro incerto de cada um. O filme deixa claro, até pelas experiências do diretor, que a memória acaba preenchendo muitos “buracos” com coisas que nunca ocorreram.

No fundo, a pergunta subliminar de Folman — “até que ponto será que minha/nossa memória foi reprimida ?” — pode ser respondida com outras duas: a primeira, intermediária e dupla, talvez seja “Como foi possível ter esquecido — será que mente tem esse dom de distorcer lembranças e criar falsas verdades por algum instinto, quem sabe, de auto-proteção ?”… e a segunda, o fato em si, os acontecimentos em si,
e eis então um pequena parcela apresentada em cenas reais na última meia hora da produção, a cores, sem os traços de animação. Se o final do filme choca alguns, não será pela cruel realidade em si, mas no fundo pela dificuldade que temos em entender a guerra, que sempre existiu na história da humanidade e nem mesmo por este “contexto eterno” se justifica, e pelo fato de percebermos que nenhuma abordagem cinematográfica, mesmo a excelente que “Valsa Com Bashir” nos traz, é capaz de superar o fato real em si. E o fato é a matança de humanos como nós, e a matança não tem justificativa em causas, ideologias políticas, em nada. E se é preciso esquecer, é preciso não esquecer, por mais paradoxal que seja, e talvez é nesse paradoxo que as mentes de quem viveu direta ou indiretamente os horrores das guerras estejam mergulhadas. O filme de Folman as traz à tona e as desnuda, como nas cenas que retratam suas poucas recordações: ao mar, nus, como quando nasceram.

Cinematograficamente falando, a tal realidade nua-e-crua dos fatos, é bom deixar claro, não impede a imensa criatividade do diretor, desde a concepção da animação, a partir dos elementos de “carne e osso” em estúdio e de cenas reais dos acontecimentos, até a emoção que tudo isso nos causa, tudo bem amarrado a partir de um roteiro simples e direto.

Os extras do DVD mostram como foi concebido o interessante processo de animação, e o diretor fala sobre a dificuldade em conseguir apoio para um “documentário de animação”, pela necessidade que a ele pediam de definir o filme entre um e outro. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, não deixe de assistir a este que é um dos melhores filmes exibidos no Brasil em 2009.

Em tempo: caso você tenha chegado aqui procurando alguma resenha crítica do filme para um trabalho escolar, lembre-se que o nome do autor e, em especial, o estilo de quem escreve fazem a grande diferença (e não enganam o professor, ainda que você mude uma parte ou outra do texto).

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em dezembro, 06 2009.

3 Respostas to “[Resenhas] Valsa Com Bashir”

  1. Um grande filme documentário com depoimentos reais vertidos para animação. Estórias de arrepiar, pois retratam um acontecimento recente e mostra, em alguns momentos, a crueza que pode tornar qualquer guerra num acontecimento de horror. Vale a pena assistir.

  2. […] CINEMA O RAMA Robson Saldanha PORTAL CINE Rogerio Nascimento CINEMA EM CASA Tommy Beresford CINEMA É MAGIA Wanderley Teixeira RAINING […]

  3. O que mais me chama a atenção nesse filme é o poder de sua trilha sonora…isso para não cair no roteiro excelente e na arte inacreditavel. A trilha aqui casa direitinho com o ritmo do inicio ao fim. Peço liberdade para compartilhar aqui o link com as minhas impressões: https://deuvontadededizer.wordpress.com/2009/12/14/valsa-com-bashir/ Espero que goste.

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