[Resenhas] 10.000 AC

10.000 AC, cartazQuando, em 1981, o carnavalesco Joãosinho Trinta (que na época ainda assinava “Joãozinho”) preteriu o Mausoléu de Halicarnasso (cujo nome, de fato, não dava samba) para incluir as Muralhas da China entre as Sete Maravilhas do Mundo Antigo, ele não poderia prever que o grande monumento chinês um dia seria escolhido uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Mais que isso: causou uma confusão dos diabos, muitas críticas e transformou o Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro daquele ano numa verdadeira Torre de Babel. Ainda assim, a Beija-Flor foi vice-campeã, e Joãosinho se confirmava mais uma vez como o grande mago do Carnaval Carioca: com suas misturas em enorme variedade de temas ele completava, entre Salgueiro e Beija-Flor, 5 títulos e 2 vice-campeonatos em 7 anos.

O mais interessante é que ninguém poderia prever, antes do desfile, com o que o público se depararia na avenida em fantasias, alegorias e evolução. Aconteceu comigo o mesmo com 10.000 AC, filme de Roland Emmerich atualmente em cartaz no Brasil: me dava a impressão que seria um filme chatíssimo sobre a vida “pré-histórica” (ok, “vida na era antiga”, melhor chamar assim).

Longe da genialidade do carnavalesco maranhense, o alemão radicado em hollywood e diretor dos questionáveis “O Patriota”, “Soldado Universal” e “Godzilla” (candidato na época ao Framboesa de Ouro) e do bem legal “O Dia Depois de Amanhã” fez um filme bastante interessante, que não poderíamos prever apenas vendo o cartaz e o trailer do filme (há uma tendência atual e detestável de se contar boa parte do filme no trailer, mas isso não acontece com “10000 AC”, felizmente).

No fundo, a produção de ótima fotografia e bons efeitos especiais mistura “tudo ao mesmo tempo agora”: povos de todo tipo e todo tipo de citação bíblica são misturados, em metáforas e simbolismos que nem sempre são facilmente perceptíveis e que jamais saberemos se Emmerich, também roteirista do filme, realmente neles pensou quando escreveu a história. Entre flagelo, dominação, a luta pela busca por um lugar ao sol e a dignidade dos povos, há uma mistura de Babel, divindades, ressurreição e, se atiçarmos a imaginação, até Cristo e Moisés, com direito a pirâmides, esfinges, mamutes, oráculos, astronomia, romance, deserto e gelo. Ufa !

Esse samba do diretor doido poderia, facilmente, transformar o filme numa salada indigesta e risível mas, se olharmos a história como meros espectadores em busca de um bom entretenimento, a história consegue cativar o espectador o suficiente para torcer pelos “heróis”, ainda que se tenha total noção do quão inverossímil é esse balaio de gatos, tigres quase pré-históricos e homens vestidos de pele de couro falando inglês. Há momentos de emoção nas interpretações razoáveis de um elenco praticamente desconhecido, à exceção (talvez) de Camilla Belle e da narração do veterano Omar Shariff. As atuações mais interessantes são a do jovem protagonista Steven Strait e a anciã “Emília pitonisa” Mona Hammond. E há também todo um paralelo possível com o tal “mundo moderno e racional” que vivemos: luta entre os povos, incompreensão, etc. Os nomes dos personagens são uma festa à parte para os brasileiros: Tic’Tic, Nakudu, Baku, Tudu e, piada-pronta, Moha !

Ainda que não seja um filme inesquecível — e obviamente boa parte da crítica especializada (em intelectualidades chatas e preconceituosas) deve ter detestado –, “10.000 AC” é bem interessante e vale uma conferida. Eu gostei. Mas depois me diga se você também não lembrou de Joãosinho Trinta e seus carnavais… Pelo menos depois de ter lido este meu texto… 🙂

Tommy Beresford

10000 AC, cena com Steven Strait e Camilla Belle

~ por Tommy Beresford em março, 15 2008.

7 Respostas to “[Resenhas] 10.000 AC”

  1. eu sou uma das que não ficou com vontade de assistir, antes, com o trailer e a “crítica especializada”, mas confio mais na sua opinião!

  2. Para mim o filme foi um espetaculo em imagens e personagens. O que mais enriqueceu o filme, sem contar com a qualidade na escolha dos personagens. atores de grande taletos. Parabéns, para todos eles e principalmento para o autor, ROLAND EMMERICH.

  3. Também gostei, apesar de não estar na lista dos meus preferidos.
    Paula

  4. esse fikme é muito loco, conta uma história de~ação e de romance que conquista qualquer um.Belo filme

  5. Foi um dos piores filmes vistos neste ano.

  6. Gostei da mistura inteligente feita pelo diretor, para mim o filme foi uma grande surpresa do começo ao fim, superou minhas expectativas, sou licenciado em História e pouco importa as verdades historicas ele vale como ponto de partida para a curiosidade alheia, as imagens tb são um show a parte!

  7. O filme é realmente incrivel,mostra diversas sociedades de tribos desenvolvidas as menos desenvolvidas.Valeu muito a pena assistir a esta historia tao interessante sobre o desenvolvimento da nossa sociedade.

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