[Resenhas] Bohemian Rhapsody

É muito fácil falar sobre a genialidade quando ela nos toca diretamente: as declarações apenas passam por nossas bocas, elas brotam do coração, da nossa memória afetiva. É difícil, porém, tentar reproduzir ou representar os gênios. Isso acontece com frequência, por exemplo, com calouros que escolhem canções imortalizadas por grandes intérpretes: não, não escolha Elis Regina ou Frank Sinatra num momento decisivo de um concurso, o efeito comparativo pode ser fatal.

Isso se aplica a Freddie Mercury? Sem dúvida. E este é o primeiro ponto positivo de “Bohemian Rhapsody”, filme que retrata a trajetória do Queen mas que sem dúvida tem em seu vocalista seu foco máximo: as versões das canções apresentadas nas cenas são as que foram de fato gravadas pelo grupo, ninguém exigiu que os atores as tentassem reproduzir. Como a montagem é muito bem feita, a escolha funciona com perfeição aos olhos do espectador.

Claro que ter o sensacional Queen como trilha já é sinônimo de meio caminho andado, mas não bastaria para construir um grande filme. Freddie foi uma grande estrela, nos vários sentidos da palavra, mas acima de tudo um intérprete admirável, de um talento inegável e personalidade muito forte. Para interpretá-lo, colocaram em Rami Malek uma prótese que num primeiro momento parece exagerada, mas que tenta aproximá-lo fisicamente do cantor: a impressão que tive é que aos poucos ela foi se tornando natural na interpretação do ator. Os cabelos dos anos 1970 e 1980 também estão lá, bem como as roupas dos astros pop da época, e no caso de Freddie eram mais exageradas do que a média: a direção de arte é bem feita e, assim como a incrível edição de som, pode ser indicada a prêmios futuros. Malek pega pra si com força máxima um difícil personagem e, especialmente na segunda metade do filme, fica difícil não derramar lágrimas com sua performance. Nem lembraremos mais de Malek como o Faraó Ahkmenrah da trilogia “Uma Noite no Museu” nem de seu Benjamin no último longa da saga “Crepúsculo”… Rami Malek está fascinante, totalmente entregue, no delicado limite para que seu Freddie não se tornasse um pastiche.

É bom lembrar que a escolha de Malek não foi imediata e o filme passou por perrengues pelos longos anos de sua produção. O projeto foi lançado oficialmente em 2010, e na época Sacha Baron Cohen foi anunciado no papel principal, mas em 2013 Cohen deixou o elenco por supostas “divergências criativas”. Nesta época, Ben Whishaw (que faria “A Garota Dinamarquesa” e “As Sufragistas” em 2015) foi cotado para viver Freddie e Dexter Fletcher anuciado como diretor mas, uma vez mais, as tais “divergências criativas” serviram de pretexto para sua saída, um ano depois. Somente no final de 2016, Rami Malek ganhou o papel e Bryan Singer assumiu a direção e é o único creditado no filme como diretor, mas é preciso citar que, em mais uma virada deste turbulento processo, foi substituido por… Dexter Fletcher, o mesmo preterido anos antes. O restante dos atores ainda demoraria mais alguns meses para ser anunciado.

Rami Malek como Freddie

Rami Malek como Freddie

A propósito, além de Malek, é importante registrar que todo o elenco é admirável. Roger Taylor, John Deacon e especialmente Bryan May estão muito bem representados, respectivamente, por Ben Hardy (de “X-Men: Apocalipse”), Joseph Mazzello (de “Jurassic Park”, ainda criança) e um Gwilym Lee muito parecido com o May verdadeiro, e o roteiro valoriza a importância dos três na criação da lenda que Freddie Mercury se tornou. Vale a menção para um Mike Myers irreconhecível como Ray Foster, executivo da EMI. E não posso deixar de citar que as histórias de amor de Freddie com Mary Austin e com Jim Hutton (interpretados por Lucy Boynton e Aaron McCusker) também são contadas no filme, e até alguns de seus gatos aparecem no longa.

Especialmente em relação ao Rock in Rio e à doença de Freddie, há erros “estranhos” no filme, mas estes mostram o quanto o espectador consegue se envolver de fato com um filme a ponto de relevá-los. Percebi as falhas, mas desde o início já estava envolvido demais para deixá-las me fazer gostar menos do longa. Talvez a dramaturgia da vida de Freddie em relação à família e às relações do grupo não seja tão profunda quanto deveria, talvez alguns cobrem mais elementos sobre a vida do astro antes da fama ou o que aconteceu durante a fase da doença, mas o que é apresentado é suficiente: o foco é mais musical do que biográfico, e as cenas das gravações das canções e das reuniões com os produtores são deliciosas.

Quanto aos tabus sobre a sexualidade do astro (e algumas manifestações em algumas salas de cinema brasileiras em tempos de acirramento da homofobia)… não deveríamos nem estar falando disso. O longa é até discreto demais, quase pudico, em relação à bissexualidade de Freddie, não justifica qualquer “auê” em torno disso. O filme é muito maior que qualquer possível polêmica tosca em pleno 2018. E se alguém vai ao filme sem nem saber direito quem eram Queen e Freddie Mercury…

O ápice de “Bohemian Rhapsody” sem dúvida é a longa sequência que reproduz a antológica participação do Queen no Live Aid, em 1985. Uma réplica praticamente exata do festival, que originalmente aconteceu no Estádio de Wembley, foi construída no Aeroporto Bovingdon, perto de Hemel Hempstead e nos dá mesmo a impressão de que o show do filme é real — a apresentação real é considerada um dos mais incríveis momentos musicais ao vivo da história, e o filme derrama no espectador esta intensidade. As lágrimas caem, o cinema balança, é inebriante. E o filme acaba na hora certa para não ceder à possibilidade de um dramalhão sobre a doença que levou à morte precoce, aos 45 anos, do gênio Freddie Mercury. Não deixem de assistir: extremamente emocionante.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em novembro, 07 2018.

Uma resposta to “[Resenhas] Bohemian Rhapsody”

  1. Para uma cinebiografia o filme não deveria errar nas datas em que os fatos aconteceram. Quem viveu na época e acompanhou a trajetória da banda fica muito difícil engolir esses deslizes. As novas gerações, que só ouviram falar e ouviram as suas músicas no YouTube, vão ficar sem saber o certo. No mais o filme é excelente em termos musicais e emociona…

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