[Resenhas] A Datilógrafa

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Toda vez que vou com minha filha à Livraria da Travessa (e isso acontece quase semanalmente já há alguns anos), ela se admira quando passamos por uma máquina de escrever. Afinal, ela nasceu já nos anos 2000, onde o computador impera e a sensação de “escrever diretamente sobre o papel”, mesmo à mão, é cada vez mais rara, já que as (ainda) poderosas impressoras a laser no fundo apenas reproduzem o que já foi criado anteriormente. Mas no final dos anos 1950, mais especificamente na França de 1959, a máquina de escrever ainda reinava, ainda que não estivesse ao alcance financeiro de todos. É com este mote que começa o delicioso “A Datilógrafa”, estrelado pela bela Déborah François.

No fundo, “Populaire” (título original, que se refere a uma das marcas de máquinas de escrever que aparecem no filme) trata sobre o machismo que imperava na época não somente nas situações marido-mulher mas também nas relações de trabalho — parece uma era longínqua, mas é desnecessário dizer que até hoje continuamos lutando contra a desigualdade. Em metrópoles como Paris, às vésperas dos anos 1960, já havia uma grande gama de mulheres com as chamadas “ideias ousadas” para a época, mas a Rose Pamphyle que vinha de uma pequena cidade do interior francês não sabia bem o que enfrentaria quando resolveu se candidatar a uma vaga de secretária, apenas tinha uma destreza incrível e uma tenacidade que se sobrepunha às dificuldades.

O filme é divertido sem ser escrachado, romântico sem ser meloso, inserida aí a crítica social: logo no início, a cena em que as dezenas de candidatas ao emprego se “enfrentam” já na sala de espera tem um ótimo texto sobre “o que se espera de uma secretária”, e leia-se aí submissão, elegâncias, modos “adequados”, etc. O enredo é simples e, sim, previsível, mas até a previsibilidade é bem-vinda, como naqueles filmes que assistíamos em nossa adolescência e torcíamos pelos protagonistas: “A Datilógrafa” é desenvolvido de forma leve e com ótima direção e fotografia (destaque para a “cena do letreiro do hotel”), emoldurada por ótima trilha sonora (com direito a “La Secrétaires Cha Cha Cha”). Em seu primeiro longa, o promissor diretor Régis Roinsard oferece ao espectador uma ambientação que nos dá vontade de estar ali naquela França daquela época…

Além de tudo, o elenco é ótimo, com direito a coadjuvantes de talento como Bérénice Bejo (Marie Taylor) e uma pequena participação de Miou-Miou (Madeleine, a mãe de Louis). Mas é a dupla de protagonistas Déborah François (Rose Pamphyle) e Romain Duris (Louis Échard, o patrão de Rose) que, com brilhantismo, cativam o espectador do primeiro ao último minuto.

Chegando de mansinho, com leveza, simplicidade e público modesto, “A Datilógrafa” já entrou na lista dos melhores filmes que estrearam no Brasil em 2013: mais uma vez, o cinema francês nos mostra que não é preciso pirotecnia e efeitos especiais mirabolantes para se fazer um bom filme. Não deixe de ver: apaixonante.

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em junho, 14 2013.

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