[Resenhas] O Lobo de Wall Street

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Ao que parece, a história real é muito pior que a da ficção: simplesmente milhares de pessoas perdera fortunas que, somadas, chegam à casa de centenas de milhões de dólares. A versão cinematográfica de “O Lobo de Wall Street” (que foi baseada nos livros “O Lobo de Wall Street”, de 2007, e “Catching the Wolf of Wall Street”, de 2009) de certa forma glamouriza a vida do ex-corretor e agora palestrante Jordan Belfort, que foi condenado a quatro anos e prisão em 1998 por fraude e lavagem de dinheiro (cumpriu menos de dois). O diretor é Martin Scorsese, que desde o início deixa claro que quer que as pessoas entendam que a visão de mundo de Belfort é de alguma forma distorcida, como na cena da mudança de cor da Ferrari. Os que não conhecem a história (ou seja, praticamente todos os espectadores) ficam na corda bamba tentando entender o verdadeiro caráter do protagonista: um aproveitador, um esperto, um visionário, um charlatão, tudo isso junto ou apenas alguém querendo subir na vida ? Repugnante ou fascinante ? Quando o personagem fala diretamente para o espectador, talvez ele mais crie dúvidas do que explique… será que assistiremos a um filme sobre um vencedor sem ética ?

Um excelente ator foi escalado para passear entre essas perguntas e dar veracidade a essa figura curiosa ainda que o filme possa parecer, em muitos momentos, uma “comédia farsesca”. “O Lobo de Wall Street” pode finalmente dar a Leonardo DiCaprio o Oscar de Melhor Ator. DiCaprio, que em sua ainda curta carreira já soma diversas grandes interpretações e prêmios, sempre foi esnobado pela academia. Num filme que parece recheado de excessos, sua atuação é brilhante, construindo o agora ex-corretor de forma minuciosa e precisa, em meio a drogas, surubas, numa espécie de “funk ostentação de Wall Street”, adaptando uma expressão sobre a qual jamais se pensaria no final do século passado.

Além de DiCaprio como protagonista, Jonah Hill (excelente) também foi indicado ao Oscar como coadjuvante: no total foram cinco indicações, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e Roteiro Adaptado. Atenção também para duas excelentes pequenas participações: brilha no início do filme o principal concorrente de DiCaprio (e favorito) no Oscar, Matthew McConaughey; mais para o final, um dos vencedores da mesma categoria pouco tempo atrás, Jean Dujardin (de “O Artista”).

Além de cenas surreais (como a que chamarei de “descida chapada pela escada rumo à Ferrari”), o filme tem sequências fortes de drogas e sexo: países como Índia, Malásia e Líbano censuraram sua exibição. Em alguns momentos, é inevitável lembrar de outro filme de Scorses, “Cassino” (1995) quando pensamos no deslumbre que acomete algumas pessoas quando chegam a lugares como Las Vegas — ou à ciranda da bolsa e a tantas outras situações da vida — e, ao saírem dali, percebem finalmente a enorme ilusão de tudo aquilo.

Houve críticas: Scorsese não teria se preocupado com as vítimas, que não aparecem em nenhum momento. Seja como for, e apesar de muitos bizarrices sexuais e até com anões, é um ótimo filme, ainda que muito longo (quase três horas). Para quem busca conclusões, como se esta fosse a finalidade do cinema de entretenimento americano: o verdadeiro Jordan Belfort continua por aí, agora com a propaganda de “o maior treinador de vendas do mundo”, ministrando cursos que custam até dois mil dólares, prometendo inclusive a velha “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta em até 30 dias”. Quem arrisca ?

Tommy Beresford

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~ por Tommy Beresford em janeiro, 24 2014.

2 Respostas to “[Resenhas] O Lobo de Wall Street”

  1. Um filme para refletir. Quantos Belfort existem por aí, atuando no mercado financeiro? Se você ainda não colocou a sua viola no saco pode ser a próxima vítima. O excelente filme de Scorsese não deixa pedra sobre pedra para dissecar esses sombrios labirintos da ganancia. O importante para essa gente é quanto se pode ganhar às custas dos otários que acreditam em dinheiro virtual.

  2. Muito bom filme: creio que a última hora melhor que as duas anteriores. Realmente o encarei como uma comédia leve que é e gostei da atuação de Di Caprio: Oscar? Caro Beresford, não…

    Já falei várias vezes por aqui que acho o ator “menor”. A estréia em “Titanic” foi só um “test drive” – no qual ele passou muito bem – e depois, em “A Praia” e em “Diamantes de Sangue”, mostrou talento. Talento limitado, mas ainda assim, um bom ator. Digo e repito que não consigo encará-lo com uma ator à altura de um “O Aviador” e “O Grande Gatsby” e por isso nem assisto a estes filmes. Sim, Scorcese acredita no garoto e sua opinião vale muito mais do que a minha! Me perdoe, caro Martin, mas não acredito no cara não…

    Pra mim Di Caprio é um perfeito Jordan Belford: curtidor da vida, das coisas, das pessoas e da cara de todo mundo. A cena da escada é fantástica e eu adorei justamente por isso: Di Caprio sabe fazer uma cena talvez dramática ficar engraçada. Lembro também de seu Calvin Candie em “Django” no qual atuou muito bem também: sem sarcasmo, ele se acaba…

    Achei que a participação de McConaughey seria mais importante: do jeito que foi, dispensável totalmente – e quase me fez perder o sentido do filme…

    Enfim, um bom filme com direito à pipoca como vc gosta de dizer. Mas premiação? Não merece… Como acabou acontecendo…

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