[Resenhas] Nomadland / Meu Pai

O que é busca e o que é encontro? O que é liberdade e o que é solidão? Até que ponto eles se confundem ou se complementam? O quanto os fantasmas do passado afetam os caminhos a serem trilhados no presente? E o quanto as dificuldades do presente interferem na incerteza do futuro que nem sabemos até onde existirá?

Em “Nomadland”, há várias histórias de busca (talvez de seu próprio encontro, talvez de um necessário “nunca mais”), mas também de solidão. A diretora Chloé Zhao oferece ao espectador a possibilidade de escolher ou interpretar o que cada um enxerga na história principal de uma Fern brilhantemente interpretada por Frances McDormand. Ela é nômade por escolha, por falta de opção, por desespero ou desilusão? Exerce uma solidão libertária ou uma liberdade feita de isolamento?

Há, sim, bem explícita, uma crítica ao capitalismo, tendo em vista a crise de 2008 que destruiu sonhos, carreiras, famílias. Mas, no final das contas, este nem é o mote principal do filme: há muitas perguntas muito humanas a serem feitas, poucas respostas a serem oferecidas e aceitas, diversas perdas a serem superadas, entre as quebras frágeis – como a louça de Fern – de um passado cujos cacos nem sempre podem ser colados. Não é um filme sobre nômades que viajam grandes distâncias, mas sobre cada um de nós, em qualquer tempo e lugar, tentando entender o que fazer da vida no tsunami do que a vida faz de nós.

A direção cirúrgica de Zhao consegue trafegar entre a expressão de McDormand e a vastidão da natureza selvagem captada por um trabalho de Fotografia estupendo, vencedor de dezenas de prêmios e favorito absoluto ao Oscar. A amplidão e o cubículo; a inércia de uma vida sem planos e o “on the road” sem destino determinado; o deserto imenso e a sobrevivência claustrofóbica dentro de uma van… escolhas e opções (ou a falta delas) se confundem, e é o espectador quem tenta respondê-las ao sair do cinema.

Se “Nomadland” é cinemão, “Meu Pai” traz a magia do bom teatro, e dos bons mesmo. Em “Meu Pai”, não há amplidão, nem fotografia estonteante de uma natureza deslumbrante. Fechado em um apartamento, é a “natureza interna” de um Anthony de idade avançada — interpretado por um xará Anthony Hopkins fenomenal em um de seus melhores papéis — que tenta manter seus pés bem fixos a um chão onde precisa preservar o que lhe pertence, mas sem ao menos saber identificar mais o que é realidade ou ficção. As perguntas são todas internas ao protagonista, de personalidade forte e ao mesmo tempo bem humorada, e cabe a ele (e não a nós) tentar encontrar-se, sabendo que, a essa altura da vida e das impossibilidades que a velhice lhe trouxe, a sensação é de aprisionamento e dependência. Ao espectador cabe rir com seu humor resiliente e sofrer com suas mazelas.

Como pontos comuns aos filmes, brilham a fotografia, a edição, a direção segura e a interpretação dos atores. “Nomadland” contou com um extenso elenco de não-atores, mas a diretora conseguiu fugir do pitoresco e das ciladas do “documental”, e todos brilham em torno da grande atriz que McDormand mais uma vez prova ser. O dramaturgo e diretor Florian Zeller estreia nos cinemas com um “Meu Pai” que exige bastante atenção do espectador para não cair nas mesmas dúvidas do protagonista (até porque a direção de arte aplicou truques bem interessantes para provocar a sensação de confusão); o elenco é pequeno e excelente, todos os atores estão muito bem em torno do já elogiado Hopkins e de uma Olivia Colman simplesmente deslumbrante: que grande atriz, que estupenda atriz… Levem dúzias de lenços, mas nada é piegas em “Meu Pai”, a emoção brota genuína pelos processos inerentes, muitas vezes assustadores mas inevitáveis, do limiar da vida. Nos identificamos com Anthony, com sua filha Anne, com as dores e dificuldades que eles nos apresentam tão diretamente: um retrato duro mas autêntico da fase mais temida de todo ser humano, mas sobre a qual evitamos pensar… até que ela chega.

Ambos os filmes emocionam o espectador, de maneiras diferentes. Ambos são imperdíveis.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em abril, 18 2021.

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