Marina Colasanti (1937-2025)
Morreu em 28.01.2025 a escritora Marina Colasanti, aos 87 anos, no Rio de Janeiro. Autora de mais de 70 obras para crianças e adultos, Marina morreu em casa e a informação foi confirmada pelo Parque Lage, na Zona Sul do Rio, onde a escritora morou. Marina ganhou nove vezes o prêmio Jabuti.
No portal G1:
O velório será no Parque Lage, onde a escritora morou. A cerimônia acontece das 9h às 12h desta quarta-feira (29). Marina era sobrinha da cantora lírica Gabriela Bezansoni.
Além de autora de poesias, contos, literatura infantil e infanto-juvenil, era também jornalista e tradutora.
Em 2023, Marina se tornou a 10ª mulher a conquistar o cobiçado Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras e considerado um dos principais prêmios literários do país.
O reconhecimento foi feito em reverência ao conjunto de sua obra, que é vasta, atemporal e inesquecível. A autora se disse surpresa e ao mesmo tempo merecedora, sem nunca ter escrito um romance.
“Todos os meus livros continuam valendo, como sabem os acadêmicos que me atribuíram o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra”, disse.
Marina Colasanti nasceu em 26 de setembro de 1937, na cidade de Asmara, capital da Eritreia. Passou parte da infância em Trípoli, na Líbia e na Itália.
Por conta da difícil situação vivida na Europa após a Segunda Guerra Mundial, Colasanti e sua família emigram para o Brasil em 1948, fixando residência no Rio de Janeiro.
O primeiro livro foi escrito em 1968. São mais de cinquenta títulos publicados no Brasil e no exterior, entre os quais livros de poesia, contos, crônicas, livros para crianças e jovens e ensaios sobre os temas literatura, o feminino, a arte, os problemas sociais e o amor.
Por meio da literatura, teve a oportunidade de retomar sua atividade de artista plástica, tornando-se sua própria ilustradora. Sua obra tem sido tem de numerosas teses universitárias.
Marina era casada com o poeta Affonso Romano de Sant’Anna e deixa uma filha, Alessandra.
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A VOZ DA MANSÃO
(Marina Colasanti – crônica para o Projeto “BR6 Convida”, no CCBB, dezembro de 2012)Era só com o ecoar daquela voz em suas arcadas, que a casa se permitia enfim assumir os ruídos do cotidiano. Ela acordou, informavam os vocalises. E o aspirador podia ser ligado, as crianças podiam mergulhar na piscina, começava o bater de louças na copa. A voz era de Gabriella Besanzoni Lage, as arcadas eram as da mansão do Parque Lage.
Nos anos todos em que morei com essa grande cantora lírica, minha tia avó, nunca a vi sair do quarto sem que estivesse arrumada, maquilada, o cabelo preso à espanhola, o cintilar dos brilhantes acompanhando-lhe os passos. Os vocalises faziam parte dessa ordem, jamais ela se permitiria entrar no palco da vida com a voz fora de lugar.
Não era só a própria voz, que ela queria bem impostada. Amava descobrir novos talentos. E no final da década de 30, apostando na musicalidade brasileira, fundou o Teatro Brasileiro SA, da qual ela mesma era presidente, formando mais tarde a Companhia Lírica Nacional.
Com a aquiescência do marido, o armador Henrique Lage, ele também apaixonado por ópera, fez da mansão uma espécie de conservatório. Transformou parte dos salões em estúdios, sacrificou outros cômodos para o mesmo fim, conseguindo ter 9 estúdios com 9 pianos. Toda a ala esquerda foi separada para utilização dos estudantes, que contavam com um refeitório só para eles. Chegou a ter 74 alunos intercalados. Os que não fossem do Rio ganhavam mesada.
Mais de uma vez me contou, e eu gostava de ouvi-la repetir as mesmas histórias, como, tendo conseguido uma concessão do Teatro Municipal por quatro anos, levou as baixelas de prata, os cristais, as toalhas de renda da sua casa para fazer a cena do banquete de uma Traviata, ou da vez em que botou todas as empregadas da mansão, e eram muitas, fazendo glicínias de papel crepom para emoldurar uma Madame Butterfly. E a cada relato sorria encantada, falando dos aplausos.
Lembro claramente, em uma das tantas molduras de prata com retratos autografados alinhadas sobre uma mesa no salão, a dedicatória de uma das fotos: “Para Gabriella Besanzoni, una voce di battaglia”. Foto e assinatura eram de Gabriele d´Annunzio, ali retratado de perfil, fardado, em campo militar. E eu sempre me perguntei se a voz a que se referia o poeta/soldado italiano, era a sua própria, ou a dela.
EU SEI, MAS NÃO DEVIA
(Marina Colasanti)Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E à medida que se acostuma, esquece o ar, esquece o sol, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manha sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo de viagem. A comer sanduíche porque não dá tempo para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre a guerra. E aceitando a guerra aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceita todo o dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. As salas fechadas de ar condicionado, ao cheiro de cigarro. A luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. As bactérias da água potável. A contaminação da água do mar. A lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir e ainda fica contente porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar nas asperezas, para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, feridas, para esquivar-se da faca, da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

















