Jane Di Castro (1947-2020)

Jane Di Castro

De acordo com o site de Miguel Arcanjo Prado, faleceu Jane Di Castro, atriz, cantora, cabelereira, travesti pioneira na cultura, aos 73 anos, após enfrentar luta contra o câncer, em 23.10.2020 no Rio, segundo apurou seu Blog do Arcanjo:

Ícone das artes, ela integrou uma geração de artistas que abriram caminho para a representatividade trans e travesti no mundo do entretenimento.

Admirada e respeitada pelo público e pela crítica, a atriz está no ar na Globo na reprise da novela A Força do Querer, de Gloria Perez. Na trama, Jane interpreta ela mesma, ídolo de Nonato, personagem de Silvero Pereira.

No último dia 14 de outubro, Jane escreveu em suas redes sociais: “Amo ter feito essa novela, obrigada Gloria Perez”.

Ter sido convidada a atuar em uma trama do horário nobre foi importante para quebrar preconceitos e estereótipos que artistas trans e travestis ainda sofrem nos dias de hoje.

Em setembro deste ano, já em tratamento, Jane declarou: “Mesmo de cama, me recuperando de uma cirurgia, não posso deixar de assistir à novela que me projetou para o mundo”, comentou sobre sua participação no folhetim global.

Jane Di Castro foi ainda uma das estrelas do premiado documentário Divinas Divas, que ganhou o Troféu Barroco na Mostra de Cinema de Tiradentes, dirigido por Leandra Leal, que retratou com perspicácia e poesia a trajetória das travestis pioneiras nos palcos brasileiros.

Divinas Divas

Leia mais clicando aqui.

O documentário “Divinas Divas”, dirigido pela atriz Leandra Leal, foi anunciado em 18.03.2017 como o vencedor da categoria melhor filme na categoria de votação popular do festival South by Southwest (SXSW), nos Estados Unidos: leia mais clicando aqui.

Na coluna de Ancelmo Gois:

Faleceu hoje, de manhã, Jane di Castro, 73 anos, de câncer no Hospital de Ipanema. Nascida e criada em Osvaldo Cruz, a transformista tinha um salão de belezaem frente ao Copacabana Palace, participava do elenco “Divinas Divas”e fez o documentário de Leandra Leal. Foi dirigida também por Ney Latorraca, Bibi Ferreira e Miguel Falabella. Jane está no ar em “A força do querer”, de Glória Perez. Perseguida durante a ditadura por fazer shows nos teatros Rival e da Praça Tiradentes. Vá em paz, querida!

Numa sessão especial de Divinas Divas, lotada, no Cine Odeon, Rio, em 23.06.2017

Matéria do jornal O Globo de novembro de 2018, pela própria Jane:

Se a Praça Paris falasse, certamente, teria muitas histórias de amor para contar. Uma delas é a minha. Os 51 anos que vivi ao lado do meu marido, Otavio Bonfim, passaram mais de uma vez por esse reduto com ares parisienses, na Glória. Nosso amor, que uniu cumplicidade e resistência, foi posto à prova ali.

Foi no Teatro Rival que nos vimos pela primeira vez. Eram 7 março de 1967, eu tinha 20 anos e estava em cartaz com o espetáculo “Vem quente que estou fervendo”. Recém-chegado da Bahia, onde nasceu, Otavio, na época com 19 anos, passou por lá e se encantou pela minha foto no cartaz. Decidiu me ver ao vivo e a cores e enviou um bilhete ao meu camarim dizendo em qual fileira da plateia estaria. Lembro-me de avistar um rapaz bonito em meio ao público e pensar: “Será que é ele?” Não só era como, a partir daquele dia, não nos largaríamos mais.

Jane Di Castro e o marido Otavio Bonfim

No palco, eu usava uma peruca platinada, mas ainda não havia me transformado na vida real. Afinal, a extensa lista de restrições impostas pela ditadura militar daquela época incluía a proibição de andarmos vestidas como mulher pelas ruas. Aquela loura vibrante transformava-se num garotinho sempre que deixava o teatro, o que me deixou um pouco insegura.

É só fechar os olhos, que consigo rever perfeitamente o que aconteceu naquela noite: ele, que aguardava a minha saída do lado de fora do Rival, me reconheceu mesmo de cara lavada e cabelo curto, revelando-se o autor do bilhete. Dali, resolvemos caminhar até a Praça Paris para conversamos melhor. Mas, ao chegar lá, nosso primeiro encontro foi interrompido pela truculência daqueles tempos. Um policial perguntou a Otavio se não tinha vergonha de estar com alguém como eu. Ele, então, precisou pedir ao militar que não me levasse presa para irmos embora em paz.

Nós nos despedimos num ponto de ônibus, onde também combinamos um encontro para o dia seguinte. Cumprimos o tratado em uma sessão de cinema no extinto Cine Pathé, na Cinelândia, com direito a Lana Turner, de quem eu era fã, na tela. Só não me pergunte o nome do filme, afinal o que queríamos mesmo era o escurinho daquele lugar para, finalmente, tocarmos as mãos um do outro.

Leia a história completa clicando aqui.


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No Wikipedia:

Jane Di Castro nasceu no Rio de Janeiro em 07 de abril de 1947, registrada no nascimento como Luiz de Castro. Passou a infância no bairro de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Filha de mãe evangélica e pai militar, sofreu em casa a repressão por ser travesti. Na década de 1960 foi trabalhar como cabeleireira, em Copacabana. Começou a se apresentar em casas noturnas do bairro e, em 1966, estreou no Teatro Dulcina. Manteve a carreira artística em paralelo com a profissão, até abrir seu próprio salão, em 2001.

Foi dirigida por Bibi Ferreira no espetáculo Gay Fantasy no qual também atuaram Rogéria, Marlene Casanova e outras e Ney Latorraca. Apresentou-se em diversos palcos do Brasil e do exterior, incluindo uma performance no Lincoln Center.

Em 2004 estrelou no Teatro Rival o espetáculo Divinas Divas, ao lado de Rogéria, Divina Valéria, Camille K, Eloína dos Leopardos, Marquesa, Brigitte de Búzios e Fujika de Halliday. O musical, que relembra a trajetória de travestis e transformistas de Copacabana, manteve-se em cartaz por 10 anos.

Depois de 47 anos vivendo com Otávio Bonfim, formalizou a união em 2014, num casamento coletivo que reuniu 160 casais LGBT. Em 2018, o marido da artista morreu em decorrência das complicações de um câncer.

No Diário do Rio:

Jane era embaixadora do turismo no Rio de Janeiro. A instituição lamentou a morte: “A perda de Jane é uma perda para a alegria, para a diversidade e para a cultura no Rio de Janeiro”, disse Claudio Castro, presidente da Associação dos Embaixadores do Rio.

Leia também:
Artistas criam podcasts inspirados em teatros que existiram no entorno da Praça Tiradentes [28.09.2020]
Não me censure – Oito amigas, um teatro, um filme [17.07.2017]

~ por Tommy Beresford em outubro, 23 2020.

Uma resposta to “Jane Di Castro (1947-2020)”

  1. Tristeza!!!! Descanse em paz….

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