Domingo de Páscoa: Crônica e dicas de filmes de Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar

Foram 9 os filmes sobre amores truncados indicados por Pedro Almodóvar em sua crônica de Domingo de Pascoa [12.04.2020] no El Diario espanhol (o texto vai ao final), com tradução de Vilmar Ledesma:

1. UM ESTRANHO EM MINHA VIDA (Strangers when we meet).
De Richard Quine con sua musa Kim Novak, un tipo de história como as que escreve Richard Yates em seus romances.

2. FIM DE CASO (The end of the affaire).
De Neil Jordan, baseado no maravilhoso romance de Graham Greene, onde o amante desesperado, que Ralph Fiennes interpretou, se debate com as recordações da mulher que lhe abandonou há anos, algo que ele nunca entendeu. Sempre supôs que “alguém” se interpunha em sua relação e não se equivocava: o que não podia supor é que esse “alguém” fosse Deus.

3. CARTA A UMA DESCONHECIDA.
De Max Ophuls. Obra prima de uma delicadeza esmagadora, baseada no romance do grande Stefan Zweig. Cinema romântico em sua expressão máxima.

4. ASCENSOR PARA O CADAFALSO.
De Louis Malle. Vale a pena ver o filme, mesmo que seja só para ver Jeanne Moreau caminhar pelas calçadas de PAris. Além da trilha sonora improvisada ao vivo durante uma projeção por Miles Davis em seus anos parisienses. E Maurice Ronet sempre misterioso e quente. E triste. Mas nesta lista, a tristeza é um valor.

5. BOM DIA, TRISTEZA.
Otto Preminger com uma Jean Seberg quase adolescente, antes da explosão em Acossado, de Godard, mas já com cabelo à la garçone. Tenho loucura por este filme e por Françoise Sagan, Deborah Kerr e David Niven. Adoro os filmes que falam sobre o tédio da alta burguesia, embora Bom Dia, Tristeza, seja algo mais do que isso.

6. A NOITE.
Antonioni, mais tédio existencial, desta vez no mundo da alta sociedad milanesa, com un trío glorioso, Jeanne Moreau, Mónica Vitti e Marcello Mastroianni. O monólogo final de Jeanne Moreau é dos finais mais bonitos e tristes que me lembro.

7. OS BOAS VIDAS (I vitelloni).
De Fellini. Adoro também os filmes que falam da vida rural. Na Espanha temos duas obras primas sobre o tema: La tía Tula, de Miguel Picazo e Calle Mayor, de J. A. Bardem, ambas recomendáveis e imprescindíveis. [Bom, temos muitas mais]. Aqui, quando falamos da vida rural prestamos mais atennção à solidão feminina, os dois filmes recomendados falam da vida de solteironas, respectivamente, Os Boas Vidas, porém, fala da solidão e do tédio de solteirões, personagens masculinos de mais de 30 anos, meninos grandes que entretem suas solidões no café da cidade ou fazendo trapalhadas, como em Calle Mayor. Outra das obras máximas de Fellini, com um Alberto Sordi inesquecível.

8. UM SÓ PECADO (La peu Douce).
De Truffaut e com Françoise Dorléac en seu esplendor. Um de meus Truffaut favoritos.

9. NO SILÊNCIO DA NOITE (In a lonely place).
De Nicholas Ray. Um noir insólito sobre um personagem verdadeiramente violento, Bogar. O filme tem como gatilho a busca de um assassino – todos suspeitam de Bogart – mas realmente o que importa e interessa é a vida do casal Bogart-Gloria Grahame, pelo mau caráter dele. O filme fala da história de um homem violento, mas inocente, de uma perspectiva muito original. A ternura dos violentos. Tudo no filme de Nick Ray é muito original.

A crônica:

VIVA A TRISTEZA!
(Pedro Almodóvar, 12.04.2020)
(Tradução de Vilmar Ledesma)

Outro dia triste, não levanto a cabeça até as 6 da tarde. Por que hoje sim e ontem não? Pela pressão atmosférica, porque é evidente que a UE não funciona quando mais se necessita dela? Porque é Quinta Santa e as ruas estão desertas de fiéis e de santos? Ou pelos 683 falecidos ontem, ainda que seja uma cifra otimista comparada com os que morreram antes de ontem, setecentos e pico?

Ante a ausência de vida ao nosso redor, você começa a perder festejos ou acontecimentos que antes do confinamento (me perdoem os fiéis) não prestava atenção, como as multidinárias procissões da Semana Santa. Embora não seja nem crente, nem idólatra, creio que no próximo ano participarei de algumas das procissões, em meu pueblo, onde tem muita tradição, ou em Málaga, onde Antonio me convidou um montão de vezes.

Depende de onde se olha, há reações de todos os tipois, para alguns no isolamento é inclusive uma solução. “A quarentena nos beneficiou: enquanto estamos confinados temos teto seguro. Depois não sabemos, não queremos pensar nisso. Vivamos o dia.” O que fala é um cubano que chegou a Valência faz um ano e meio, vive com famílias de colombianos, nicaraguenses e romenos em um centro cedido pela fundação privada Per amor a l’art”. Embora trabalhe em serviços esporádicos (entregador de pizzas, agente de segurança noturno) ainda não conseguiu os papéis. situação atual lhe assegura um teto, quando tudo se normalizar começara para ele e sua família a grande aventura.

Algo parecido me conta um amigo ator, a quem chamei, não só para saber de sua saúde, a saúde de seu amor e a saúde de seus gatos, para perguntar-lhe como está sua libido desde que está isolado e ele me respondeu que normal, caminhando para melhor. Que a ausência de estresse e não ter planos nem a curto e nem a longo prazo favorece a relação sexual. Ele me conta, sem estabelecer comparações, que tem um amigo psicólogo que segue atendendo por internet e que lhe disse que a maioria de seus paciente está muito melhor do que o habitual. O desastre e a angústia geral (junto com a falta de estresse) criam umas condições positivas, o fato de não ter que responder as necessidades de cada dia os faz sentir liberados. Entendo que em um entorno tão conflitivo e doloroso faz por comparação que seus problemas sejam menores. Não sei explicar, mas entendo que os pacientes do psicólogo se sintam melhor quando tudo desmonta.

Os que não se sentem tão bem são os que se encontram sexualmente isolados (especialmente a população mais promíscua que vive sem par). Por isso chamei um amigo e lhe perguntei por sua libido, depois de ler um artigo no mesmo jornal sobre “as estratégias para acalmar a fome de contato humano”. Segundo este artigo, as pessoas estão usando seus brinquedinhos sexuais mais do que nunca, há verdadeiro desespero em alguns casos de gente solitária e livre cuja rotina para satisfazer seus desejos se vê limitada pelo confinamento. Parece que há mais sexo virtual que nunca, as mensagens e trocas telefônicas transbordam de material e literatura pornográficos.

Que o best seller do momento é o sugador de clitóris, os masturbadores masculinos e uma grande variedade de brinquedinhos para casais.

Depois de ler este artigo, chamei vários amigos e amigas para comprovar o estado de seu apetite sexual. Exceto um que estava desesperado e me disse que encontrava na rede outros para se encontrarem em supercados e trepar nos banheiros, em geral, a pandemia e seu consequente isolamento haviam baixado as necessidades eróticas da maior parte das pessoas que chamei. Eu, por exemplo, desde que começou o isolamento a libido me abandonou. A tristeza e a preocupação deslocaram, suponho, as fantasias eróticas.

Mas entendo que o sexo é uma necessidade e um negócio. Li num jornal um artigo sobre a situação desesperada que vivem os profissionais do sexo.

“Estamos desesperadas, disse uma prostituta de Alicante, ninguém nunca pensou em nós, mas nunca havíamos sido tão invisíveis como agora”.

Algumas de suas companheiras foram passar a quarentena com um cliente por um preço reduzido. Quando leio isso, por deformação profissional, penso que esta possibilidade é um grande argumento para um roteiro. Por uma questão pragmática, o cliente e sua puta decidem passar a quarentena juntos, incluindo um desconto no preço habitual de seus serviços. Isto não só significa que o cliente terá coberto seus desejos carnais na dura quarentena, e sim que viverá com a profissional uma situação que se parece muito a de um casal. As 24 horas juntos, temo de falar, de dividir, de falar de suas infâncias, de sua família, de desnudar-se física e psicologicamente, de descobrir-se mutuamente. É uma situação riquíssima para fabular sobre ela. Se eles sobrevivem a esta quarentena, desejo a estes casais uma relação futura muito sólida.

Cito um tweet que meu irmão postou há dois dias comparando a reação espanhola, francesa e alemã diante do desastre econômico que o coronavírus supões para a indústria cultural. O ministro da cultura espanhol, segundo El Confidencial, confirma na segunda que não haverá medidas específicas para o setor. Ou seja, zero ajudas, e ficou inalterado, diante do estupor dos interessados.

O governo francês, porém, se mobiliza para defender a cultura nacional frente ao coronavírus (ABC). O ministério da Cultura destinará 22 milhões de euros para apoiar o setor cultural. Alemanha inclui a cultura entre “seus bens de primeira necessidade”. Especifica, segundo o ABC, que a indústria cultural poderá ter acesso à linha de liquidez ilimitada prevista pelo governo de Angela Merkel.

Três reações bem distintas e bem eloquentese. Em uma carta ao ministro de Cultura, o prestigiado diretor de teatro Lluís Pascual começa afirmando que este país não gosta de seus artistas. Pode admirar, invejar e até em alguns casos adorar, mas gostar é outra coisa. E tem toda a razão. A carta faz um retrato longo e pormenorizado da falta de defesa histórica dos trabalhadores da Cultura e o ministério de mesmo nome que só em muitas raras ocasiões nos tem representado.

Quando uma das mudanças do novo governo de Pedro Sánchez excluía José Guirao (o ministro de Cultura anterior e um dos melhores gestores culturais que tivemos nos últimos 40 anos, politicamente independente, mas com enorme experiência em cultura), vivi a exclusão como uma grande perda que a realidade não fez senão confirmar.A nomeação do senhor Rodríguez Uribes é uma nomeação política, ele é um homem de partido, como se costuma dizer, poderiam ter lhe dado este cargo como qualquer outro. Nos quarenta anos que levamos de democracia não temos tido sorte com o Ministério de Cultura, só lembro da ministra Carmen Alborch (nos anos 93 a 96) e de José Guirao, o penúltimo ministro a que tocaram esses meses de interinidade nos quais fez tudo o que pode. Não importa o sinal ideológico: nos diferentes governos que viveu nosso país, nunca houve vontade política de ajudar o setor cultural.

Depois do desprezo de segunda pela boca do ministro Uribes, e dos protestos que recebeu por parte do setor, hoje, Sexta Santa, a ministra da Fazenda e porta voz do governo, a senhora Montero, prometeu que haverá uma reunião conjunta de ambos ministérios com o setor da cultura, na qual suponho que se reverá a situação.

Mas voltemos ao isolamento e as medidas imediatas pra combatê-lo. Eu confio muito no cimea, ver filmes que nos entretenham e enriqueçam e já que comecei esta crônica falando da tristeza, decidi por filmes que falam de amores truncados.

—- Aqui entram as dicas de filmes acima. Pedro Almodóvar encerra assim:

Já nos despedimos de uma Semana Santa de ruas vazias e agora nos esperam um monte de festividades, provavelmente também com as ruas desertas. Não me acostumo.

Original:
https://www.eldiario.es/tribunaabierta/Viva-tristeza_6_1015658432.html

~ por Tommy Beresford em abril, 12 2020.

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