Um Cinema dos Velhos Tempos: Crônica de Artur Xexéo em 15.10.2017

Trecho da crônica de Artur Xexéo em O Globo de 15.10.2017:

Não dá para dizer que eram irmãos gêmeos. Um era um ano mais velho do que o outro. O mais moço nasceu em 1966; o mais velho, em 1965. Mas eram irmãos, sem dúvida. Parecidíssimos. Um morava no Catete; o outro, em Copacabana. O caçula era maior, abrigava 1.282 espectadores; o outro, 1.044. Seriam gigantescos nos dias de hoje. Quando foram criados, eram comuns. Nem muito pequenos, nem muito grandes. O maior tinha nome e sobrenome: Condor Copacabana, para não deixar dúvidas sobre o bairro em que foi criado. O outro era só Condor, mas, para deixar claras suas origens, era chamado de Condor Largo do Machado. Os dois morreram há tempos, vítimas do modismo dos cinemas de shopping. O Condor Largo do Machado ainda teve uma frustrada tentativa de competir com os novos tempos, dividindo-se em dois. Mas não resistiu e, assim como o irmão, morreu em 1980.

Os Condor são cinemas típicos de uma época do Rio. Surgiram em construções que, na década de 60, previam a criação de uma galeria no andar térreo, sempre com uma sala de cinema no fundo. São exemplos desta arquitetura o Cine Capri, em Botafogo, de 1968, e que está lá ainda abrigando as primeiras salas do Grupo Estação; o Paris Palace, de 1961, na Rua Prado Júnior, em Copacabana, que virou um Hortifrúti; o Bruni Ipanema, de 1963, na Visconde de Pirajá, que virou uma Casa & Vídeo; e o Cine Veneza, de 1963, também em Botafogo, que… o que aconteceu mesmo com o Veneza? Acho que ainda está lá. Abandonado.

O Condor Largo do Machado trouxe uma certa sofisticação aos cinemas da área. Quando foi inaugurado, ainda estavam na região o Politeama e o Azteca, poeiras históricos. Tinha também o São Luiz, um palácio na sua origem, mas que estava decadente. O Condor trouxe ar refrigerado e poltronas estofadas para o Catete.

Este é o momento no qual o querido leitor pergunta: por que diabos o colunista está falando em cinemas de rua do Rio? Com tanto assunto relevante por aí, o empoderamento da mulher, a apropriação cultural, as políticas afirmativas, isso lá é hora de se falar de cinemas de rua? Bem, fui motivado pela notícia publicada aqui neste diário, semana passada, anunciando a reabertura do Condor Largo do Machado. Desde que os dois cinemas foram fechados, o do Largo do Machado, comprado pela Igreja Universal do Reino de Deus, nunca foi inteiramente desativado, diferentemente do de Copacabana, que foi transformado em mais uma Casa & Vídeo.

Que meus amigos cineclubistas não me ouçam, mas prefiro ver um cinema de rua nas mãos dos evangélicos do que nas de donos de lojas de eletrodomésticos ou de hortifrutigranjeiros. Depois de virar Casa & Vídeo, é quase impossível voltar a ser cinema. Já uma igreja… Os templos da Universal mantêm a estrutura das salas que, numa rápida maquiagem, se transformam em templo. É pouco provável, mas não é impossível uma igreja retirar a maquiagem e voltar à forma original. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o Teatro Tereza Rachel, ali em Copacabana. Depois de ser alugado pela Universal por mais de dez anos, viu o contrato não ser renovado e empresários transformarem-no de novo em teatro. Aleluia, irmão!

Não que a volta do Condor Largo do Machado vá ser exatamente uma volta às origens. Os evangélicos não conseguiram transformá-lo em templo por restrições do condomínio do prédio. Desistiram de brigar e prometem reabri-lo como um cinema… bíblico! Não é bem a programação adequada para uma sala que exibia quase exclusivamente filmes franceses e italianos no tempo em que filmes franceses e italianos primavam pela ousadia. Era um filme de Alain Delon ou Eleonora Rossi Drago seguido de um jantar na Lamas (o Lamas original também ficava por ali) ou um filme de Romy Schneider ou Ugo Tognazzi seguido de uma esfirra com chope no árabe da galeria (este permanece ali e, para muita gente, continua fazendo a melhor esfirra da cidade).

Certamente os frequentadores do novo cinema não serão adeptos de esticadas, do chope pós-sessão ou de jantar fora (é preciso guardar dinheiro para pagar o dízimo). Periga que o tal cinema se transforme até numa igreja disfarçada. Quem me garante que um debate após a sessão não se torne um culto? Se esse for o único jeito de se reinaugurar uma sala de exibição numa galeria, definitivamente, não vivemos tempos de cinemas de ruas.(…)

Fonte:
https://oglobo.globo.com/cultura/um-cinema-dos-velhos-tempos-21948045

~ por Tommy Beresford em outubro, 15 2017.

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