Martha Medeiros: Easy Rider

O texto de hoje [25.09.2010] nos jornais O Globo e no Jornal de Santa Catarina fala sobre cinema, mais especificamente “Easy Rider” confira:

Sem destino
(Martha Medeiros)

Desde que o ator Dennis Hopper faleceu, em 29 de maio último, me propus a cumprir uma tarefa daquelas que a gente se autoimpõe, mas sempre deixa pra depois. No caso, a tarefa era assistir ao clássico Easy Rider, filme dirigido e atuado por ele, e que no Brasil ganhou o título de Sem Destino. Foi o que acabei de fazer, com um atraso absurdo.

O filme é de 1969. Eu tinha oito anos quando foi lançado. Lembro que não demorou para que meu meu pai e minha mãe trouxessem o disco com a trilha sonora pra casa, e ele não saiu mais da minha vitrola. Você leu certo: vitrola. Aqui jaz Matusalém.

Foi uma das vantagens de ser de uma época em que não existia “música para criança”. Quando eu tinha oito anos, música para criança era Beatles, Janis Joplin, Tina Turner, Burt Bacharach, Astor Piazzola, e muito Caetano, Chico, Tim Maia, Jorge Ben, Rita Lee. Ouvia-se o que os pais ouviam. Tempos modernos.

Até hoje, considero Easy Rider uma das trilhas mais empolgantes do cinema, ao menos pra mim, que elegi The Weigth como minha música-tema desde que me entendo por gente. Então, ter assistido, 40 anos depois, no meu DVD player (que também já é um troço antigo) as imagens de um filme que eu nunca havia visto, junto à música que eu sempre guardei na minha memória afetiva, foi uma viagem: meu on the road particular sem sair do sofá.

Além da trilha, me emocionou o talento de Jack Nicholson, um garoto que era apenas uma promessa, ensaiando seus primeiros maneirismos e bonito como poucos atores são hoje. Peter Fonda também não era de se jogar fora, mas é Dennis Hopper quem rouba a cena e justifica toda a mitificação que carregou até o último dia de vida, aos 74 anos.

O filme não envelheceu, ainda que algumas cenas (em especial as que se passam no acampamento hippie) sejam um pouco cansativas. Ele se mantém atual porque trata de um assunto que tampouco envelhece: liberdade. O filme dá seu recado através das belas imagens e do som, mas há um diálogo definitivo, em que Nicholson e Hopper analisam a diferença entre se discursar sobre liberdade e se conviver com quem é livre. Do blablablá teórico à aceitação na prática, há um precipício que atemoriza a sociedade até hoje.

Por fim, o que me deixou mais comovida foi me dar conta de que meus pais cultuaram esse filme, falavam sobre ele conosco, encheram a casa com sua música, isso no período mais repressivo do Brasil. Me senti agradecida por ter tido pais, em tese, convencionais, porém com o espírito arrojado, o pensamento aberto, um casal de 30 e poucos anos que sabia diferenciar o novo do velho, e que hoje, tendo a idade que Hopper teria, ainda se mantém assim. Deram a seus dois filhos, meu irmão e eu, uma base cultural sem preconceitos. E, com isso, um destino.

(Martha Medeiros)

~ por Tommy Beresford em setembro, 26 2010.

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