Paulo José, Aderbal, Domingos, Música e Cinema

Paulo José

Paulo José

Reportagem de Audrey Furlaneto para a Folha:

Enquanto espera os melhores amigos, Paulo José procura um disco de B.B. King para acompanhar a melodia ao piano, em sua casa na Gávea, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. Antes, estava sentado na sala de entrada, de onde se pode ver um outro cômodo, cujas paredes são cobertas de livros.

Havia mostrado um deles, sobre John Cassavetes, em que um texto seu comenta a obra do cineasta norte-americano. Nas paredes, há também cartazes originais de filmes em que atuou, como “O Padre e a Moça”, “Macunaíma” e “Todas as Mulheres do Mundo”.

“Diga a ele que estou esperando”, pede à secretária, que está ao telefone com o diretor de teatro Aderbal Freire Filho. Ele está atrasado para o encontro que a Folha organizou, também com a presença do cineasta Domingos Oliveira, na tarde do último dia 9.

Os três amigos vão reproduzir a reunião que acontece no filme “Juventude”, de Oliveira. No longa, são Antônio, David e Ulisses, antigos companheiros que relembram os bons tempos durante um final de semana.

Como no cinema, é Paulo José quem abre a casa aos outros dois. Não oferecerá drinques, como faz no filme que será exibido hoje e no dia 26 na 32ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. “Temos bolo [de fubá] e café”, afirma a Domingos, que já está sentado ao piano, tocando uma de suas músicas.

“Tenho poemas e canções, que nunca mostro a ninguém. Não tenho coragem.” Como se estivesse em cena, Paulo, então, discursa: “Não temos mais nada a perder, Domingos”. O diretor, 72, concorda: “Agora vai, Paulo. Agora vai”.

Os dois se conheceram em 1963, no camarim de “A Mandrágora”. Em “Juventude”, a amizade é de infância: os personagens haviam contracenado em “A Ceia dos Cardeais”, numa montagem para a escola.

“Domingos sempre foi o chefe da gangue. Entrávamos na [boate] Mario’s Inn, e sabíamos todas as coreografias das músicas dos Beatles”, conta Paulo. E lá vai Domingos tentar lembrar os passos de “I Want to Hold Your Hand”. “Os Beatles eram invencíveis.” Paulo completa: “Aquilo era música erudita!”.

Todas as mulheres

Como em “Juventude”, o assunto, então, migra para as proezas amorosas. “Nunca vou me esquecer de uma noite de Carnaval”, diz o diretor. “Tinha várias mulheres na mesa, e uma delas era a mais linda, todos olhavam pra ela. Eu sentei e disse: “Está saindo amor por todos os meus poros. Amor, amor, amor”. E levei a moça comigo. A glória!”

Minutos antes, Paulo dizia, sobre o amigo: “Domingos era muito galinhão, tem que se dizer isso. O que a Leila [Diniz] sofreu nas mãos dele… Logo depois se separaram”.

Para Domingos, que levou o amor por Leila às telas no clássico “Todas as Mulheres do Mundo”, em 1967, o “galinhão” pode ser chamado de “um desvairado”. “Eu comecei a me entender muito tarde. Até hoje eu não tenho certeza se o amor é uma escolha sofisticadíssima ou se simplesmente me senti sozinho e me afeiçoei a essas mulheres sofisticadíssimas, brilhantes [Leila Diniz e Priscilla Rozenbaum, com quem é casado há 27 anos].”

As “sofisticadíssimas”, aliás, surgem em frases cômicas no filme, aplaudidas durante a primeira exibição do longa, no Festival de Gramado, em agosto. “Ela fica linda quando pensa”, dizia o personagem de Domingos na tela, ao se referir a uma das namoradas.

Já se levantando, Paulo José conclui: “O amor demora muito”. Volta, em seguida, com uma antologia de Carlos Drummond de Andrade. “Deus me deu um amor em tempo de madureza”, recita.

Cinema-escândalo

Aderbal Freire Filho chega com uma hora e meia de atraso. Aos 67 anos, o diretor de teatro, que faz sua estréia como ator de cinema em “Juventude”, decidiu criar uma “agenda de coincidências”. “Anoto todas as coincidências. Para ver se desvendo o mistério da vida.”

Enfim reunidos, os três amigos tentam agora lembrar quando é que Freire Filho chegou à turma carioca. Vindo de Fortaleza em 1970, ele tenta, rindo: “Acho que a gente ainda não se conheceu, Domingos. A gente era um ser só e deve ter se separado em algum momento. Já sei: eles inventaram o Rio, e eu cheguei logo depois”.

Domingos, numa cadeira de balanço — que poderia ser a mesma da hilária cena do filme em que tenta se levantar e, sem forças, desiste, desabando na cadeira –, lembra que o encontro foi durante a peça “A Morte de Danton”, dirigida por Freire Filho, dentro de obra do metrô carioca, em 1977.

“Era uma loucura, o público de repente estava ocupando o lugar do elenco”, conta o diretor sobre seu espetáculo. Conversam, então, sobre a “ousadia” de alguns trabalhos da época e, em seguida, Domingos relembra seu encontro com o cineasta Glauber Rocha.

“Nos cruzamos numa sauna e ele me disse: “Domingos! Qual é o escândalo do seu novo filme? Porque todo filme tem que ter um escândalo!”. Agora, sempre que estou fazendo um filme, fico me perguntando qual é o escândalo.”

Em “Juventude”, complementa o diretor, o tal escândalo são “três homens maduros falando com sinceridade”. “É sobre a amizade e a perplexidade. É um espanto”, avalia Domingos. O ator Paulo José, ao lado, recorre ao livro de Drummond: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno”.

A matéria pode ser lida pelos assinantes da Folha neste link.

~ por Tommy Beresford em outubro, 21 2008.

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