Rio de Janeiro: Deputados, ameaças, cotidiano e Costa Gravas
Texto de Jorge Antonio Barros em 31.10.2011 publicado no Globo Online:
Na terra em que o político que faz o certo vira alvo dos errados
(Jorge Antonio Barros)Vivemos uma época de total inversão de valores, sobretudo na área da Justiça e da segurança pública. Se não vejamos:
1) Uma juíza que age dentro da lei e decide enfrentar quadrilhas de assassinos infiltradas na polícia é executada sem direito a defesa pelos alvos de sua investigação. Nem mesmo escolta tinha.
2) Os policiais que denunciam os criminosos, incluindo os maus colegas de trabalho, são obrigados a entrar no anonimato, enquanto que os policiais da banda podre desafiam tudo e todos, inclusive seus superiores. Foi o caso de um policial civil que outro dia deu entrevista escondendo a face por denunciar os PMs que mataram a juíza.
3) Os cidadãos de bem estão atrás de grades, cercados de câmeras, com a privacidade por um fio, enquanto que a maioria dos criminosos está solta e livre da ação da Justiça. Muitos desses foras-da-lei contam com advogados que os defendem em troca de polpudos honorários e questionam, por exemplo, o emprego de gravações telefônicas autorizadas pela Justiça, acenando com a Constituição, que garante ao acusado o direito de não produzir provas contra si mesmo.
4) Os contribuintes que fazem sua parte e cumprem as leis são obrigados a pagar cada vez mais impostos, enquanto que os servidores encarregados de usar esse mesmo dinheiro dos impostos em benefício da sociedade fazem farra com o dinheiro público sem o menor peso na consciência e totalmente impunes.
5) Os políticos que não se acovardam e partem para o ataque contra criminosos e perigosas máfias acabam na mira daqueles grupos, enquanto que os políticos omissos se mantêm encastelados em seus gabinetes com ar-condicionado e toda mordomia, e não estão nem aí para a hora do Brasil.
O primeiro exemplo do quinto item é o caso do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), que revelou ao repórter Cassio Bruno, do GLOBO, ter que abandonar o país por causa das ameaças que vem sofrendo por parte de milícias do Rio. Freixo presidiu a CPI das Milícias, que desnudou o Poder Legislativo do Estado do Rio, mostrando com quantos votos se faz uma milícia. Como se sabe, milícias são grupos formados por policiais e ex-policiais civis e militares que criaram fortes vínculos com o poder político-partidário no Estado do Rio de Janeiro — sobretudo a partir do final da década de 90. São grupos infiltrados dentro do poder político e no aparelho policial. Portanto, podem agir com maior rapidez e mais “eficácia” do que outros grupos armados. Conhecem os meandros do aparelho policial, suas manhas e mumunhas. E agora sabem também com que políticos podem contar na hora do pega pra capar.
Para quem não está ligando os nomes às pessoas, sugiro uma sessão de “Z — Estado de Sítio”, de Costa-Gavras, o filme que conta a história da conspiração para matar um deputado, que conta com grupos ilegalmente armados e mantidos pela própria polícia. Revi ontem, mais de 30 anos depois da primeira vez. O filme é de 1969, foi proibido pela censura no regime militar, mas tenho a sensação de que de tempos em tempos volta a entrar em cartaz no Rio e em outras partes do Brasil — a terra em que o político que faz o certo, mais cedo ou mais tarde, vira alvo dos errados.
(Jorge Antonio Barros, Globo Online, 31.10.2011)
~ por Tommy Beresford em outubro, 31 2011.
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