[Resenhas] Assim Me Diz a Bíblia

Quando, em meio a aplausos, terminou a exibição de “Assim Me Diz a Bíblia” (que incompreensivelmente começou alguns minutos atrasada porque, segundo os sorridentes organizadores da sessão do Festival do Rio 2008 no Palácio 2, faltava um funcionário, que chegou esbaforido em cima da hora), me lembrei imediatamente de “Blue Eyes”, um excelente documentário de Jane Elliott onde o foco era o preconceito racial. Não que um filme tenha a ver com o outro, mas me veio à cabeça a mesma expressão: “este é um filme que deveria ser obrigatoriamente exibido nas escolas uma vez por ano”.

Em “For the Bible Tells me So” (título original), o diretor Daniel Karslake mostra as histórias de diversas famílias que passaram poucas e (nada) boas em função do fervor de uma devoção religiosa baseada em interpretação literal da Bíblia, em meio ao preconceito que a obediência fiel a essas palavras leva. Os comportamentos extremados de um país dito cristão e que sempre se mostra “cheio de boas razões” como os Estados Unidos caem sobre suas cabeças quando é revelada a homossexualidade de um dos membros da família.

O filme é bem construído, ainda que feito numa estrutura tradicional, sem grandes surpresas. Embora algumas sequências (como a de desenho animado) possam quebrar um pouco o ritmo, são todas partes complementares numa discussão importante que vai muito além da pergunta “Homossexuais serão bem-vindos no reino dos céus ?”. O modo com que as famílias lidaram com o confronto entre a crença na Bíblia (e no discurso de seus pastores) e o amor pelo filho dito “pecador” é apresentado sem rodeios e sem muito melodrama, embora possa emocionar em diversos momentos – inevitável.

O filme mostra, de forma contundente e instigante, que a Bíblia já foi (e continua sendo) uma arma para justificar também preconceitos contra mulheres e sua subserviência, escravidão… Em meio a depoimentos de estudiosos do Cristianismo, teólogos, padres, sacerdotes, destaca-se a emoção dos pais que, além da redescoberta do amor por seus filhos, mostram como aprenderam, sofrendo na pele, que contextualizar as passagens (e pensar a respeito) das Escrituras é muito mais importante que tomá-las ao pé-da-letra, o que parece óbvio para quem assiste ao filme mas é considerado insano por diversos dos “personagens” abordados no documentário.

Algumas produções americanas para a TV e cinema (incluindo cenas com Charlie Sheen e Denzel Washington) são bem utilizadas como ilustração. Nota-se a exaltação do público com cenas como as em que James Dobson, por meio de seus programas de rádio e a fundação “Focus on the Family”, faz seus discursos apocalipticos sobre “o mal que destrói os EUA”… Além de depoimentos fantásticos de pais e mães, destaque para as poucas mas excepcionais participações de Desmond Tutu e para os bastidores da história da ordenação do bispo Gene Robinson. Indispensável.

Tommy Beresford

~ por Tommy Beresford em outubro, 01 2008.

2 Respostas to “[Resenhas] Assim Me Diz a Bíblia”

  1. Não sei qual o critério que o Festival de Cinema do Rio usa para classificar um filme como gay. Este, por exemplo, é um documentário que deveria passar em todas as escolas, para combater o preconceito. Afinal, o que é um filme gay?

  2. O filme é desmistificador…
    Uma arma documentada contra o preconceito e as grandes verdades absolutas pregadas para fortalecer a homofobia mundo a fora.
    Os tempos são outros…
    É preciso tirar as amarras da intolerância!
    Homossexualismo não é OPÇÃO e muito menos uma doença.
    Quando vamos aprender a olhar homens e mulheres além do seu físico e de sua condição sexual?
    Até quando a bíblia vai ser utilizada como munição para carregar as armas da homofobia?
    Quando aprenderemos a amar o próximo sem impor condições?
    E… Quantos jovens encontraremos mortos até esse dia chegar?

    Os tempos são outros…
    Estamos distantes do “IDEAL”?
    Então, como vamos lidar com o “REAL”?

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