[Resenhas] Apenas Uma Vez
Quando assisti, semanas atrás, ao trailer de Apenas Uma Vez, fui tomado por um pensamento inédito: “puxa, essa música deve ter gerado um excelente filme”. Fiquei surpreso com essa impressão, afinal normalmente é a trilha sonora que se encaixa bem (ou não) em uma determinada produção.
Ao conferir o filme, percebi que não estava tão equivocado assim: longe de ser um “filme do gênero musical”, não apenas uma, mas todas as canções de “Once” (título original) é que literalmente constróem esse singelo filme sobre perdas, ganhos, retomadas e ideais.
O filme, rodado em apenas 17 dias com uma câmera digital, é tão belo quanto simples: um ‘consertador’ de aspirador de pó aproveita as horas vagas para cantar e tocar por alguns trocados nas ruas de Dublin, onde encontra uma tcheca que admira seu trabalho. Uma amizade rapidamente se forma e, em torno da empatia que cresce entre os dois e em especial da música, ambos mergulham num final de semana intenso em um estúdio, em pequenos passeios quase sem destino e em sentimentos crescentes mas nem sempre possíveis de se tornarem realidade.
Se os personagens principais não recebem nome no filme (apenas Guy e Girl), seus intérpretes merecem toda menção. Como ator, Glen Hansard é praticamente estreante, e faz seu primeiro trabalho como compositor no cinema levando de cara um Oscar de Melhor Canção Original, junto com Markéta Irglová, a outra protagonista do filme e igualmente debutando como atriz, pela excelente “Falling Slowly”. Hansard é vocalista de uma banda em Dublin, “The Frames”, da qual o diretor do filme, John Carney, participou como contrabaixista até 1993. Já Markéta trabalhou com Hansard no álbum “The Swell Season”, gravado na mesma época do filme (embora Hansard e Markéta tenham recebido o Oscar em 2008, o filme foi produzido em 2006).
Toda a trilha é admirável, e boa parte do texto é substituída justamente pelas belas letras, melodias deliciosas e interpretações arrebatadoras. Há cenas admiráveis, como a do duo na loja de instrumentos musicais, mas esta é apenas uma entre muitas.
Não esperem um roteiro elaborado: simples, singelo, belo e bom de se ver e ouvir, romântico sem ser um filme de amor e usando a música ao mesmo tempo como tema e linguagem, “Apenas Uma Vez” é um filme que remexe com delicadeza a alma de quem assiste. Se você só gosta de aventuras hollywoodianas, fuja dele. Caso contrário, corra para uma das (infelizmente poucas) salas escuras que ainda o exibem e delicie-se.


Lindo demais… Cada música é mais profunda que a outra. Quem puder me indicar mais filmes do gênero, eu agradeço.
Um abraço,
Lu